quarta-feira, 28 de janeiro de 2026

Festival '84 - Album Oficial do Festival San Remo (1984)


Olá, amigos! Hoje trago para vocês uma raridade que resgatei diretamente do RuTracker: o LP Festival '84. Este não é apenas mais um disco de coletânea; ele é o registro oficial de um dos anos mais emblemáticos do Festival de Sanremo. A edição em questão foi lançada pela gravadora CGD (Compagnia Generale del Disco) em colaboração com outros selos, como Baby Records, WEA e Durium, com a finalidade de aproveitar o sucesso comercial das canções apresentadas no 34º Festival de Sanremo.

Jairzinho: Do San Remo ao Balão Mágico

A 34ª edição do San Remo ocorreu logo em Fevereiro de 1984, ano em que Jair Rodrigues e seu filho, Jairzinho concorreram com Io e Te. Na época, Jairzinho tinha apenas 8 anos. A performance deles no palco do Teatro Ariston foi tão carismática que atravessou o oceano com direito a matéria e videoclipe no Fantástico. Se no Brasil tudo encaminhava para Jairzinho ser um dos novos integrantes do Balão Mágico, na Itália, estava saindo um LP pelo selo CGD, inteiro no idioma italiano, La Casa Dei Giocattoli, em português Casa de Brinquedos – não confundir com o album brasileiro de Toquinho, pois dele mesmo só algumas canções foram aproveitadas –, só confirmando que a vitrine foi boa e a visibilidade gigantesca.

Um LP de Campeões

Para quem não conhece a força do Sanremo, este álbum reúne a nata da música italiana daquele ano:

  • Os Vencedores: O disco traz "Ci Sarà", de Al Bano e Romina Power, que levou o 1º lugar no festival.

  • O Vice-Campeão: A faixa de abertura, "Serenata", deu a Toto Cutugno a medalha de prata naquela edição.

  • Destaque de Crítica: "Per una bambola" de Patty Pravo e "Nuovo Swing" de Enrico Ruggeri também foram finalistas marcantes da categoria principal ("Big").

Os "Falsos Estrangeiros" do LP

  • Dhuo: De fato, é uma dupla italiana formada por Bruno Bergonzi e Mike Logan. Eles faziam parte daquela leva de artistas italianos que apostavam no Italo-Disco e no Synth-pop cantado em inglês para facilitar a exportação da música. No seu LP, eles aparecem com a faixa "Walkin'".

  • Rockets: Aqui temos um caso curioso. Embora tenham começado na França, eles se tornaram um fenômeno gigantesco na Itália, sendo adotados pelo público e pela indústria italiana (especialmente pela gravadora CGD, que lançou este disco). Em 1984, com a faixa "Under the Sun" que está no seu vinil, eles já eram figurinhas carimbadas no mercado italiano, muitas vezes vistos como "prata da casa" pela forte conexão com os produtores locais.

A Participação de Randy Crawford


O festival permitia a participação de artistas estrangeiros como convidados fazendo apresentação solo ou em dueto com algum astro italiano. Inclusive há registros da apresentação da banda Queen no 2º dia do Festival (03 de fevereiro de 1984 – data do meu aniversário de 1 ano, rs...), cantando "Radio Gaga". Já Randy Crawford – estrela global contratada pela Warner Bros – apresentou no palco do Teatro Ariston como convidada de honra cantando a balada "Why", canção composta pelo italiano Pino Donaggio para o filme "O Mundo de Don Camillo (1983). Inclusive Donaggio é conhecidíssimo na Itália devido o sucesso da canção "Io Che Non Vivo (Senza Te)" que ele apresentou na 15ª edição do Festival, em 1965. No entanto a canção escolhida pra fechar este LP foi "Nightline" de autoria de Brie Howard, Davey Faragher e Glen Ballard, talvez para criar um clima de apoteose na coletânea e porque a canção estava em alta na Europa naquele ano.

A 3ª colocada que ficou de fora


A canção 'Cara', do cantor Christian, que alcançou a medalha de bronze no Festival, não entrou para este disco. Na Itália, a canção foi lançada ela de forma avulsa em single. pelo selo Polydor. Contudo, a canção pode ser encontrada no álbum extraoficial "San Remo 84" editado pelo selo búlgaro Balkanton, bem como na coletânea 'Italo Top-Hits '84 - Mit Den Festival-Siegern Von San Remo' (em português: 'Com os vencedores do Festival de San Remo'), lançada pela K-Tel na Alemanha naquele ano.

San Remo em Hi-Fi

A ripagem original foi feita em 2014 com equipamentos de altíssimo nível, como o lendário toca-discos Revox B790 e a cápsula AT 440MLa. No entanto, o que torna este arquivo que compartilho hoje especial é o tratamento recente realizado em janeiro de 2026.

Eu já havia feito um bom tratamento em Fevereiro de 2025 do material que encontrei no RuTracker, mas em Janeiro de 2026, utilizei a ferramenta MVSep DeNoise para remover os resquícios de ruído de baixa frequência do motor do prato e micro estalinhos típicos do vinil, mantendo a dinâmica original da master. O resultado é um áudio cristalino, como se o disco tivesse acabado de sair simultaneamente em CD na época.

Faixas: 
01. Serenata - Toto Cutugno
02. Walkin' - Dhuo
03. Per Una Bambola - Patty Pravo
04. Nuovo Swing - Enrico Ruggeri
05. Se Ti Spogli - Giorgia Fiorio
06. Un Amore Grande - Pupo
07. Under The Sun - Rockets
08. Ci Sarà - Albano e Romina Power
09. Quanto Ti Amo - Collage
10. Chi (Mi Darà) - Iva Zanicchi
11. Regalami Un Sorriso - Drupi
12. Non Voglio Mica La Luna - Fiordaliso
13. Io e Te - Jair Rodrigues con Jairzinho
14. Nightline - Randy Crawford

A perfeição textual se tornou possível graças à assistência do Gemini.

Para baixar a coletânea em FLAC, clique AQUI.

Aerobic Dancing - The Unmixed Edition (1989)

Quem viveu o final dos anos 80 certamente se lembra das batidas pulsantes que ecoavam nas salas de ginástica. O álbum Aerobic Dancing, lançado pela WEA em 1989, foi a trilha sonora definitiva desse movimento. No entanto, o disco original era um "non-stop mix", com as faixas emendadas para não deixar ninguém parado.

Do lado A, um repertório mais high energy pra começar no gás da esteira, polichinelo, pula corda, dança e corrida e do Lado B um repertório house uptempo para desacelerar e manter exercícios aeróbicos mais leves.

Decidi resgatar essa energia, mas de uma forma diferente. Realizei uma pesquisa minuciosa para encontrar cada versão utilizada naquele LP, montando uma coletânea Unmixed. O diferencial? Cada música foi ajustada no pitch exato em que aparece na prensagem original do vinil, preservando aquela sonoridade acelerada e vibrante que o Prof. Délio Tomaselli idealizou na época. O resultado é uma experiência em alta fidelidade com as versões 12" e Club Mix que marcaram época. Diria que um "Frankenstein de luxo" hehehehe...

Confesso que essa música "Private Joy" da cantora Cheyne que está entre Stacey Q e Oingo Boingo, fiquei surpreso ao saber que foi retirada da trilha sonora de "Weird Science – Mulher Nota 1000", sendo um new wave composto por ninguém menos que o mestre Prince. Aliás a música "Nowhere Fast", canção do mestre Jim Steinman composta pro filme "Ruas de Fogo" interpretada pelo Fire Inc. e usada como tema de abertura do Programa Livre no SBT, também está aqui, entre Oingo Boingo e The Cars. Que ode à boa música, gente! O puro energético dos anos 80!

Uma curiosidade: no single de Blue Moderne, existe a versão 'No Use to Cha Cha (House Mix)', que o produtor utilizou estrategicamente na transição para 'I Want Your Love'. Mesmo isolando as gravações, o conceito do efeito foi mantido. Essa versão que Paul Rutherford – que é backing vocal e dançarino do Frankie Goes to Hollywood – nos apresenta, é uma aula de como fazer um cover respeitoso, mas com aquela "pressão" dos anos 80. Ele pegou o DNA elegante do Chic (Nile Rodgers e Bernard Edwards) e injetou uma dose de Hi-NRG/House que casou perfeitamente com a proposta do álbum. A versão extendida usada nesse album está na edição expandida do album "Oh World" (1989) lançada em 2011 em CD duplo pela Cherry Pop. A suavização do loudness war da gravação remasterizada foi feita através do MVSep Matchering e uma leve fade out foi feito no final da canção. Ficou uma delícia!

Outro detalhe técnico interessante: a cantora canadense Nancy Martinez, no intervalo entre seus álbuns "Not Just the Girl Next Door" (1986) e "Unpredictable" (1989), lançou avulsamente a música "Can't Wait". Na versão "Vocal Club Mix", o mix original do LP utilizou um trecho do meio da música pra colar na introdução. Repliquei esse mesmo artifício para criar a versão definitiva da faixa neste projeto. 

E o duo Genuine Parts formado por duas MCs Ivette & Diley, não gravou álbuns mas lançou 4 singles na década de 80 sendo três pela Pizazz Records, com distribuição global pela Atlantic Records. Por isso veio parar no album da WEA, não por acaso. Mas pensa numa música mosca branca! Conclusão: em 'Show Me What To Do', recorri ao recorte da própria mixagem do LP, estendendo a estrutura com 'copy e paste' e um fade out sutil.  E para garantir uma coesão sonora com a coletânea fidelidade sonora, recorri ao MVSep Matchering.

Faixas:
01. I Love You (St. James Mix) - Stacey Q
02. Private Joy (Extended Version) - Cheyne
03. Just Another Day - Oingo Boingo
04. Nowhere Fast (tema do Programa Livre) - Fire Inc.
05. Tonight She Comes - The Cars
06. No Use To Borrow (Club Mix) - Blue Moderne
07. I Want Your Love (Extended Mix) - Paul Rutherford
08. Can't Wait (Vocal Club Mix) - Nancy Martinez
09. Show Me What To Do (Vocal Radio Mix) - Genuine Parts
10. You Came (Shep Pettibone Mix) - Kim Wilde
Agradecimento a Jefferson Shimitzu pela faixa 08 e ao Gemini pela parceria – de milhões – no start textual.
Para baixar a coletânea em FLAC, clique AQUI.

domingo, 25 de janeiro de 2026

Golden Boys - Golden Boys (1986)

O Golden Boys surgiu no ano de 1958, formado por: Waldir Anunciação (1941-2004), Roberto Corrêa (1940-2016), Ronaldo Corrêa (hoje com 83 anos) e Renato Corrêa (hoje com 81 anos). 

A extensa família Corrêa tem irmãos mais jovens que formaram o Trio Esperança, que eram Mário, Regina e Evinha. Com a saída de Evinha para carreira solo, a Marizinha entrou em seu lugar.

Renato Corrêa do Golden Boys, que é conhecido por estar a frente da direção artística da EMI Odeon, na década de 80 e lançar artistas como Dalto e Banda Blitz e ainda produzir os últimos discos do José Augusto na gravadora, trouxe o know-how para este trabalho dos Golden Boys que conta com um time de músicos de primeira linha!

Jurim – Bateria
Jamil Joanes – Baixo em "Não Chore Baby", "Transformista" e "Pot-Pourri".
João Batista – Baixo em "Imagens", "Nova Mulher", "Talvez", "Rock 'N'Roll Lullaby", "Quando Penso em Você", "Tipo Blásée" e "Ah! Como É Bom".
Jaime Além – Guitarra em todas as faixas e Violão em "Não Chore Baby", "Imagens", "Rock 'N' Roll Lullaby" e "Tipo Blasée".
Zé Lourenço – Teclado em todas as faixas, exceto em "Quando Penso em Você".
Jota Moraes – Teclado em "Quando Penso em Você".
Léo Gandelman – Saxofone em "Imagens" e "Ah! Como É Bom".
Cidinho – Percussão em "Talvez" e "Ah! Como É Bom".

Embora o grupo tenha aproveitado o sucesso de "Rock 'N'Roll Lullaby" da segunda versão da novela Selva de Pedra de 1986, ela não fez sucesso. E pelo incrível que pareça, a gravadora "jogou água no chopp" ao não eleger ao menos três canções classudas para divulgar o album e que redescobrindo o album eu me teletransporto ao ano de 1986, me imaginando como programador de radio naquele ano, incluindo ao menos estas canções: "Imagens" (composição de Leno), "Quando Penso em Você" (composição de Cláudio Rabello e Jota Moraes) e "Talvez" (composição de Ronaldo Corrêa). Também ouvindo este disco senti grande desleixo por parte da Sony Music em não contemplar faixas inéditas desse disco para o repertório da série Brilhantes, que praticamente é o disco O Sonho Não Acabou inteiro com capa de coletânea. E mais adiante tinha oportunidade de lançar a Série XXI e Maxximum com os dois albuns na íntegra, não fizeram.

Coube aos entusiastas que descobrem a existência destas pérolas no garimpo e levam pra casa pra remasterizar, que é o meu caso! O LP foi remasterizado com uso de agulha Ortofon Concorde Club, garantimdo o melhor resultado possível de fidelidade sonora. Ao passar o áudio no MVSep DeNoise a sensação é de que estou com uma master de gravadora, mesmo com um ou outro estalinho apareça.

Faixas: 
01. Não Chore Baby (Don't Worry Baby)
02. Imagens
03. Nova Mulher
04. Talvez
05. Ah! Como É Bom
06. Rock 'N' Roll Lullaby
07. Quando Penso em Você
08. Transformista
09. Tipo Blasée
10. Na Rua, Na Chuva, Na Fazenda; Casaco Marrom e Andança

Para baixar este album em FLAC, clique AQUI

sexta-feira, 23 de janeiro de 2026

Edu Passeto - China Blue (1985)

Edu Passeto foi um músico e compositor brasileiro natural de Pindorama (SP), radicado em Campinas, onde se tornou uma figura conhecida no cenário musical autoral da região. Sua trajetória artística começou muito cedo, tocando desde a infância e se consolidando como intérprete e compositor a partir dos anos 1970, tendo se apresentado em festivais, casas noturnas e eventos culturais ao longo de toda a sua vida.

Na virada dos anos 1980, firmou uma parceria criativa com o músico Gui Tavares, com quem lançou o álbum Noite Que Brincou de Lua em 1981. Este trabalho, produzido de forma independente, reuniu canções que combinam elementos de música popular brasileira, folk, jazz, rock e bossa nova, criando um repertório autoral que dialoga com as correntes estéticas do período.

Noite Que Brincou de Lua foi redescoberto por colecionadores e aficionados por música brasileira e ganhou edição oficial em vinil e CD em 2018 pela Far Out Recordings, selo britânico conhecido por relançar raridades da música brasileira para audiências globais.

Em 1985, Passeto também lançou o álbum China Blue pelo selo Zero Db, com distribuição da PolyGram — um registro de sua produção solo no cenário musical independente dos anos 1980.

Ao longo das décadas seguintes, Passeto continuou atuando como músico e compositor até o fim de sua vida, com diversos projetos e apresentações ao vivo, incluindo registros em CD e DVD que circulam em acervos particulares e coleções de fãs. Títulos como Sentitive – Edu Passeto Ao Vivo, Versão Brasileira, Atibaia Encantado e DVD Edu Passeto Ao Vivo são lembrados por ouvintes e pesquisadores, embora suas datas de lançamento não estejam amplamente documentadas em catálogos públicos online.

Edu Passeto faleceu em 2008, vítima de aneurisma cerebral. Sua obra tem sido revisitada por colecionadores e apreciadores da música autoral brasileira, mantendo viva a memória de um artista que construiu uma carreira consistente e reconhecida por sua autenticidade e sensibilidade criativa.

(Texto elaborado com ChatGPT, que também foi parceiro de pesquisa)

Revisitando China Blue


O meu amigo Charles Portilho, proprietário da 019 Discos, me emprestou o LP do músico Edu Passeto para que além de conhecer, digitalizar suas canções e torná-las conhecida ao público em geral. O album é uma produção independente assinada pelo músico, que compõe todas as faixas do disco, e traz alguns parceiros, como Anildo Antonio (em "Tudo de Novo"), Adriana Pimentel (em "Paraty"), Brandini (em "Reggae do Mosteiro") e Rafael Contatoni (em "Padre Vitor"). O disco teve direção musical de Rafael Contatori e produção executiva de Edu Passeto. Aliás, Passeto, Contatori e Petrocinio Jr revezam parcerias de arranjos das canções do disco, conforme apontado no Discogs.

A cozinha musical deste album é composta por:
  • Edu Passeto – Vocal, guitarra e claves
  • Carlos Alberto G. Silva – Baixo 
  • Newton L. Regina Jr. – Guitarra Elétrica
  • Rodrigo Botter Maio – Sax Alto e Sax Soprano
  • Alex Maiorino – Teclados (Emulador EMAX)
  • Alcides Maiorino Filho, Claudinho Barroso, H. Petrocino Jr., Rafael Contatori - Teclados (Emulador EMAX).

Nota de agradecimento: O resgate deste álbum contou com o apoio cultural de Charles Portilho, proprietário da 019 Discos de Nova Odessa–SP.  Muito obrigado por mais esta contribuição valiosa

Faixas: 
01. China Blue
02. Tudo de Novo
03. Pela Vidraça
04. Voarás
05. Paraty
06. Cruzeiro do Sul
07. Cabochard
08. Reggae do Mosteiro
09. Boca de Avelã
10. Padre Vitor

Para baixar o album em FLAC, clique AQUI.

Lula Barbosa - Os Tempos São Outros (1986)

Lançado em 1986, Os Tempos São Outros apresenta Lula Barbosa em um momento de plena consolidação artística, capturando o espírito de transformação da música brasileira na segunda metade da década. O título, mais do que uma afirmação, funciona como síntese de um período marcado por deslocamentos estéticos e pela abertura a diferentes circuitos da canção popular.

O grande destaque do álbum é "Mira Ira (Povo Mel)", composição de Lula Barbosa e Vanderlei de Castro que se tornou finalista do Festival dos Festivais. Com participação especial de Miriam Mirah, a faixa reúne arranjo de Wagner Tiso e violão de Victor Biglione, configurando uma das interpretações mais emblemáticas da canção naquele período.

A força do LP se revela na sua sofisticada construção musical e na reunião de nomes centrais da produção instrumental brasileira da época. Os arranjos contam com a participação de Gilson Peranzzetta, Mario Lucio Marques, Alberto Rosenblit e Wagner Tiso, entre outros, delineando uma sonoridade de forte elaboração harmônica e orquestral.

As guitarras e violões desempenham papel central na identidade sonora do disco. Ricardo Silveira assina violão de aço e guitarra na faixa-título; Robson Jorge participa de "Pra Ver Nascer o Sol"; Roberto Menescal imprime sua assinatura em "Estrela"; enquanto Victor Biglione transita entre diferentes faixas, incluindo "Mira Ira" e "Tempo de Fé". O solo de Wander Taffo em "Toque Mágico" acrescenta outro ponto de destaque ao conjunto.

A base rítmica é sustentada por músicos como Arthur Maia, presente em faixas como "Os Tempos São Outros" e "Sesmaria", além de Jorginho em "Pra Ver Nascer o Sol". A percussão reúne ainda Bizu e Clodoaldo Canizza, enquanto a bateria fica a cargo de Paschoal Meirelles.

As texturas harmônicas e eletrônicas são enriquecidas pelos teclados e sintetizadores de Alberto Rosenblit e Mario Lucio Marques, além dos sopros de Márcio Montarroyos, Ricardo Pontes e Zé Carlos, que ampliam o espectro sonoro do álbum.

Gravado nos estúdios Transamérica (São Paulo) e Sigla (Rio de Janeiro), o projeto contou com produção executiva de Mariozinho Rocha e colaboração de Luiz Carlos Maluly em faixas específicas, entre elas "Toque Mágico", posteriormente destacada como single em programação de rádio FM.

Antes do álbum, Lula Barbosa já havia registrado um compacto duplo pela Continental em 1981, considerado uma raridade de sua discografia inicial, com arranjos de Joel Nunes e produção de Telmo Rodrigues. Em 1984, uma das faixas presentes em Os Tempos São Outros, "Pra Ver Nascer o Sol", foi lançada em compacto pela RGE, em parceria com "Felina", com arranjos de Nico Rezende e participação de Torquato Mariano.

"Tempo de Fé", por sua vez, já havia sido gravada por Jessé no álbum Estrela de Papel (1984), em uma interpretação amplamente reconhecida pela sua intensidade vocal.

O impacto do Festival dos Festivais também reverbera no período seguinte. A gravadora Continental, capitalizando o sucesso de "Mira Ira (Povo Mel)", incluiria posteriormente uma nova versão da canção no álbum Terra Canabis, do grupo Tarancón, com participação de Miriam Mirah e do Placa Luminosa.

Ao longo de sua carreira, Lula Barbosa também teve composições gravadas por artistas como Fábio Jr., Negritude Junior, Só Pra Contrariar, Ara Ketu, O Terço, Ana Caram, Jair Rodrigues, Gaúcho da Fronteira, Chrystian & Ralf, Jane Duboc, Jessé, Banda Cheiro de Amor, Gilliard, entre outros, evidenciando sua circulação entre diferentes vertentes da música popular brasileira.

Após o término de seu contrato com a CBS, o compositor seguiu trajetória independente, participando de festivais e circuitos regionais, mantendo vínculo constante com a canção popular brasileira em suas expressões mais diversas.

Em novembro de 2017, foi realizada uma remasterização do LP a partir de reprodução com cápsula Ortofon OM5E, em projeto pessoal de restauração sonora. Posteriormente, o material passou por novos ajustes de redução de ruído com o uso de MVSep DeNoise, resultando em uma versão final de referência para o arquivo digital do projeto.

Faixas: 01. Os Tempos São Outros
02. Viajar
03. Mira Ira (Povo Mel) [Part. Esp. Miriam Mirah]
04. Tempo de Fé
05. Sesmaria
06. Toque Mágico
07. Para Ver Nascer o Sol
08. Guarida
09. Moleca
10. Estrela
11. Mira Ira (Povo Mel) [Primeira Versão] (Part. Esp. Tarancón e Placa Luminosa)

Para baixar o album em FLAC, clique AQUI.

Michael Sullivan & Paulo Massadas - Sullivan & Massadas (1987)

Sullivan & Massadas: O Épico Pop da RCA

Em 1987, Michael Sullivan e Paulo Massadas deixaram de ser apenas os arquitetos dos sucessos gravados por seus colegas para assumirem o protagonismo com seu primeiro LP pela RCA Victor. Sob a direção artística de Miguel Plopschi, o álbum é um monumento à produção fonográfica, unindo o refino tecnológico à proposta popular da dupla na época, que ficou com a produção executiva do projeto sob seus cuidados. O resultado é uma mescla de canções dançantes no estilo rock e rhythm & blues americano – que constituem a trajetória da dupla desde a década de 1970 – com baladas emblemáticas com forte apelo para FMs.

Arquitetura Sonora e Produção Internacional

O refinamento que se ouve neste projeto é fruto de uma colaboração técnica rigorosa. Gravado nos estúdios WILD TRACKS e LION SHARE, na Califórnia, o álbum contou com a co-produção e arranjos de Erich Bulling, que também assumiu os teclados e a programação. A mixagem final, realizada nos Estúdios da BMG no Rio de Janeiro, passou pelas mãos de técnicos como Marcelo Sussekind e Flávio Sena, garantindo a clareza das camadas instrumentais que incluem as guitarras de Bob de Marco e Ricardo Silveira.

Participações Especiais: Um Desfile de Estrelas

As faixas são verdadeiros documentos históricos de parcerias e homenagens:

  • Quero Mais: Abre o Lado A com o piano e a sofisticação de Sérgio Mendes, um dos brasileiros mais respeitados no mundo, gentilmente cedido pela AM Discos.

  • Lady X: Sullivan e Massadas trazem o Trem da Alegria para homenagear a "Rainha" Xuxa Meneghel, em uma celebração do fenômeno infantil que eles mesmos ajudaram a criar. A canção conta com o reforço do coro infantil formado por Clara, Ana, Bianca, Betina e Rodrigo Otavio.

  • Dê Uma Chance ao Coração: Mais do que um hit, é uma reunião filantrópica que contou com um coro estelar composto por Alcione, Fafá de Belém, Sandra de Sá, Roupa Nova, Fagner, Rosana, Joanna e Patrícia Marx e ainda traz o reforço de um coro formado por Prêntice, Junior Mendes, Roberto Corrêa, Regina Corrêa, Ronaldo Corrêa, Fabiola, Nina e Solange. A canção, diga-se de passagem, foi um estouro nas FMs na época do lançamento!

  • I Need Somebody: a canção que traz solo de guitarra de Ricardo Silveira, tem participação de Jermaine Jackson, artista cedido pela Arista, reforçando a fusão do rhythm & blues com o funk americano. 

Dados curiosos:

A Metamorfose de "Doce Estrela": Um detalhe histórico fascinante reside na faixa de encerramento, "Doce Estrela". Em 1987, ela se apresenta como uma balada estritamente romântica, com versos que narram o desejo e a espera. Entretanto, esta obra passaria por uma lapidação profunda três anos depois: em 1990, para o 5º álbum do Trem da Alegria, a letra "boba" original daria lugar a um contexto espiritual e religioso. Com a participação do Roupa Nova (que já estava presente no coro deste disco de 87), a canção deixaria de ser apenas um romance para se tornar um hino de fé, mostrando a versatilidade composicional da dupla.

A releitura posterior de "Sei": Um ano após o album de Sullivan & Massadas, a canção foi oferecida a José Augusto – que também participa na canção "Dê Uma Chance ao Coração" – que incluiu no repertório de seu 3º album gravado pela RCA, em 1988. 

Nota de Remasterização

Visando garantir melhor fidelidade sonora do LP, foi usada a agulha Ortofon Concorde Mix. Mesmo com o resultado satisfatório em 26/11/2023, em janeiro de 2026 apliquei sobre os áudios tratamento de MVSep DeNoise, melhorando ainda mais a experiência auditiva.

Faixas: 
01. Quero Mais (part. esp. Sergio Mendes)
02. Não Diga Adeus
03. Entre Amigos
04. Lady X (part. esp. Trem da Alegria)
05. Na Linha da Tua Mão
06. Caminhos da Emoção
07. Dê Uma Chance ao Coração (part. esp. amigos)
08. Três É Demais
09. I Need Somebody (part. esp. Jermaine Jackson)
10. Sei
11. Doce Estrela

Para baixar o album em FLAC, clique AQUI.

quinta-feira, 22 de janeiro de 2026

Ruy Faria - Amigo É Pra Essas Coisas (1984)

O álbum Amigo é Prá Essas Coisas, lançado por Ruy Faria (1937–2018) em 1984 sob o selo WEA, é um exercício de elegância e curadoria dentro da MPB. Diferente de um disco solo convencional, a obra funciona como um painel onde Ruy, o arquiteto das harmonias do MPB4, convida elementos fundamentais de sua trajetória para pontuar momentos específicos de sua narrativa musical.

O Poder da Harmonia e a Curadoria de Época

Um ponto central desta análise é a releitura de "Nossa". Enquanto Gilberto Gil construiu uma harmonia quase acústica no álbum "Um Banda Um" (1982), a versão de Ruy Faria carrega um conceito muito mais harmônico e preenchido. É a prova de que uma mesma composição pode ganhar dimensões completamente distintas através de arranjos vocais e instrumentais precisos.

O faro de Ruy para o que é relevante também se manifesta em "Nós Dois", de Milton Nascimento e Luiz Avellar. Ruy registrou a canção logo após o grupo AdCanto (1982), antecipando-se ao próprio Milton, que só viria a gravar uma versão definitiva em sua voz anos depois, no álbum "A Barca dos Amantes" (1986).

Versões Definitivas e Clássicos Revisitados

A faixa que dá título ao disco, "Amigo É Pra Essas Coisas", de autoria de Silvio Silva e Aldir Blanc, apresenta-se aqui como uma versão definitiva, contando com a participação de Chico Buarque e do grupo MPB-4. É um reencontro histórico, já que o MPB-4 havia gravado esta obra anteriormente no álbum "Deixa Estar" (1979). Aliás, "Não Fala de Maria", faixa que abre o disco, é composição de Chico Buarque que ele mesmo gravou para seu album "Nº 4" (1970).

O editorial destaca ainda "Pois É Pra Que", de Sidney Miller, uma canção que "tem cheiro de clássico" e possui uma árvore genealógica de interpretações riquíssimas. Vale a pena visitar as versões do próprio Sidney Miller (1968, álbum "Brasil: do Guarani ao Guaraná"), de Cynara (1969, álbum "Pronta pra Consumo") e do MPB-4 (1971, álbum "De Palavra... em Palavra..."), que inclusive fica a minha dica serem revisitados atentamente escutados!

Aliás, Ruy Faria gravou neste album "Luz Azul", uma versão de Ribbon in the Sky, uma canção inédita que Stevie Wonder registrou na coletânea "Stevie Wonder's Original Musiquarium I" (1982).

Kleiton Ramil traz sua sonoridade característica especificamente para a faixa "Caco Velho", composição de Ary Barroso. O Quarteto em Cy e o MPB4 aparecem como blocos de apoio em faixas como "Amar de Novo" e a instrumental "Cachoeira de Cambucí", consolidando a sonoridade vocal que definiu uma era.

O Rigor da Produção WEA

Sob a direção artística de Liminha e produção executiva do próprio Ruy Faria, o disco equilibra o orgânico e o eletrônico. A ficha técnica destaca a programação de sintetizadores por Marcio Queiroz e Magro, um detalhe que situa o álbum perfeitamente na estética sonora de meados dos anos 80, sem perder a sofisticação dos arranjos e regências de Luiz Antônio.

Estética e Identidade Visual e relançamento em CD

A capa e contracapa, assinadas por Carlos Horcades, é um documento visual dessa rede de afetos. As fotografias de Carlos Horcades, Ivayr Borges e Daniel Augusto Jr. emolduram Ruy em um ambiente de celebração, onde as imagens dos amigos (Chico, Kleiton e os grupos vocais) não são apenas ilustrações, mas extensões da própria proposta sonora do álbum. Entretanto, a edição em CD lançada pela Velas traz um material gráfico novo, supervisionado por Tadeu Valério, com capa de Palado e Rodrigo Martins, atualizando a imagem de Ruy Faria para o ano de 1994.

Nota de agradecimento: O resgate deste álbum contou com o apoio cultural de Charles Portilho, proprietário da 019 Discos de Nova Odessa–SP.  Muito obrigado por mais esta contribuição valiosa

Faixas:
01. Não Fala de Maria
02. Amigo É Pra Essas Coisas (part. esp. Chico Buarque)
03. Nossa
04. Marca de Amor
05. Caco Velho (part. esp. Kleiton Ramil)
06. Pois É, Pra Que?
07. Luz Azul (Ribbon in the Sky)
08. Amar de Novo (part. esp. MPB-4 e Quarteto Em Cy)
09. Nós Dois
10. Cachoeira de Cambuci (Instrumental) (part. esp. MPB-4 e Quarteto Em Cy)

Para baixar o album em FLAC, clique AQUI.