sexta-feira, 22 de maio de 2026

Victor & Leo - Vitor e Leo [1° Álbum Perdido] (2002)

 

O disco perdido de Victor & Leo – A gênese de uma dupla de sucesso

Muito antes de dominarem o cenário sertanejo nacional e fundarem o próprio escritório artístico, o Vida Boa Produções, os irmãos mineiros Vitor e Leo (grafados assim, à época) lançaram, de forma independente, um álbum homônimo pelo extinto selo Number One, em 2002. Este registro, hoje ausente das plataformas digitais e nunca relançado oficialmente, tornou-se uma raridade fonográfica, sendo um dos capítulos menos conhecidos — mas fundamentais — da trajetória da dupla.

Gravado em um momento ainda distante da fama, o álbum carrega a semente de tudo que viria depois: romantismo sertanejo, espiritualidade, melodias suaves e letras autorais de forte identidade. Os arranjos de todo o disco ficaram a cargo do consagrado maestro Eduardo Lages, conhecido por seu trabalho com Roberto Carlos, o que demonstra o cuidado e o prestígio já envolvidos naquele projeto inaugural. A produção ficou a cargo de Lino Toscano, que também foi empresário da dupla durante os seus primeiros oito anos de carreira, exercendo papel essencial na estruturação artística do projeto.

Mesmo com produção modesta e circulação restrita, o disco apresenta várias composições que se tornariam pilares do repertório da dupla — ou ganhariam nova vida em interpretações de outros grandes nomes do sertanejo.

Ao longo da carreira, Vitor & Leo revisitaram várias faixas deste álbum inaugural, reaproveitando composições de Victor Chaves em novas gravações com arranjos mais sofisticados, atmosféricos e amadurecidos, compatíveis com a estética que consolidaram nos anos seguintes:

“Deus e Eu no Sertão”, relançada no álbum Borboletas (2008);

“Não Vá pra Califórnia”, incluída em Boa Sorte pra Você (2010);

“Sonhos e Ilusões em Mim”, regravada no álbum Amor de Alma (2011), com participação especial de Paula Fernandes;

“Do Outro Lado do Rádio”, que ganhou nova versão na voz de Daniel, no CD/DVD Raízes Ao Vivo (2010);
“Esse Alguém Sou Eu”, que foi interpretada por Leonardo em seu Ao Vivo (2009).

Embora a maioria das canções presentes no disco sejam assinadas por Victor Chaves, há exceções. Além de “Escondendo o Jogo” (Ed Wilson / Gilson) e “Ritmo da Chuva” (John Gummoe, versão em português de Demétrius), destaca-se também “Através da Vidraça”, composição de Fauze, Jamil Andare e Álvaro Troni.

O encerramento das atividades do selo Number One levou à perda da master original, o que impediu qualquer relançamento comercial em larga escala. Fora dos catálogos digitais, o álbum permanece como um item de culto entre fãs e colecionadores — um testemunho cru, porém precioso, da origem artística de Victor & Leo, onde já se vislumbrava o brilho de uma das duplas mais influentes da música sertaneja contemporânea.

Ficha Técnica – Álbum “Vitor e Leo” (2002)
Produção: Lino Toscano
Arranjos, Teclados e Piano: Maestro Eduardo Lages
Violão e Guitarra: Paulinho Ferreira
Guitarra e Violão: Rick Ferreira
Baixo: Pedro Ivo, Darcio
Bateria: Pedro Ivo, Albino Infantozzih
Percussão: Laércio da Costa
Gaita: Aloizio Becker
Violino: Silvio Luis
Vocais de apoio: Ângela, Ringo, Silvinha Araújo

Faixas: 
01. Não Vá pra Califórnia
02. Através da Vidraça
03. Esse Alguém Sou Eu
04. Deus e Eu no Sertão
05. Escondendo o Jogo
06. Não Minta pra Mim
07. Sonhos e Ilusões em Mim
08. Do Outro Lado do Rádio
09. Esperanças Não Morrem Assim
10. Ritmo da Chuva (Rhythm of the Rain)
11. Pra Mim Só Tem Você

Para baixar em FLAC (Lossless), clique AQUI.

John Kip - Adjustable [Promo CD] (2011)


John Kip: a voz brasileira que canta o mundo em inglês

Jonathan Lassandro Villas Boas Ayres, conhecido artisticamente como John Kip, é um cantor e compositor paulistano que se destacou no cenário musical brasileiro com um repertório predominantemente em inglês. Desde cedo, dividia sua atenção entre duas grandes paixões: a música e o automobilismo — influência direta do pai, piloto de kart. Crescendo nesse ambiente, foi desenvolvendo um gosto apurado pela música internacional e um estilo próprio de interpretação.

Em 1993, aos 18 anos, Kip se mudou para os Estados Unidos, onde viveu por três anos. Durante esse período, atuou como músico em bares, o que consolidou sua experiência e presença artística.

A proximidade com o automobilismo permaneceu ao longo dos anos. Trabalhou como assessor de Rubens Barrichello e, em uma viagem à Itália ao lado do piloto, teve um encontro marcante com o cantor italiano Biagio Antonacci. A conversa despertou nele a consciência de que não conseguiria se afastar da música por muito tempo.

De volta ao Brasil, em 2008, fundou com o Maestro Billy uma produtora de áudio, com a qual gravou vinhetas, jingles e paródias musicais. A experiência despertou ainda mais seu desejo de se aprofundar na carreira musical.

Em parceria com o produtor Dudu Borges, Kip formou uma banda de estúdio e lançou, em 2011, seu primeiro álbum, "Adjustable", reunindo composições inéditas, releituras e regravações. O disco se destacou pela proposta original de apresentar músicas brasileiras cantadas em inglês — uma ponte entre o mercado internacional e a riqueza melódica nacional.

O single que dá nome ao álbum foi tema da novela "Passione", e ganhou um videoclipe dirigido por Hugo Pessoa, com participações de Rubens Barrichello e Mateus, da dupla Jorge & Mateus. Kip também lançou versões em inglês de grandes sucessos sertanejos como “Onde Haja Sol”, “Pensa em Mim”, “Espelho” e “Amo Noite e Dia”, algumas com participação da própria dupla Jorge & Mateus.

Seu talento também brilhou nas trilhas sonoras de novelas, com regravações como “Rocket Man”, de Elton John, em "Tempos Modernos", e a faixa autoral “I'll Help You Stay”, presente em "Insensato Coração". Essas aparições renderam espaço em rádios adultas contemporâneas como Antena 1, Alpha FM e Transamérica.

Seu último registro musical no mainstream foi em maio de 2012, com um reboot da faixa “Adjustable”, remixada por Renato Borges. Apesar da boa recepção, o álbum que leva o mesmo nome, distribuído apenas de forma promocional, nunca foi lançado oficialmente nas lojas, o que acabou transformando a obra em uma raridade desejada por fãs e colecionadores.

Atualmente, Jonathan assina como Jonathan Ayres em suas redes sociais, indicando, de forma discreta, o encerramento do nome artístico John Kip. No Instagram, utiliza o perfil @jayres.frango, e não demonstra manter vínculos com o antigo público ou com a indústria musical. É bacharel pela Fundação Armando Alvares Penteado (FAAP), embora não tenha especificado sua área de formação.

Com uma trajetória marcada por ousadia e originalidade, John Kip deixou um legado musical que segue vivo entre aqueles que reconhecem seu talento em dar voz internacional às melodias brasileiras.

Faixas:
01. Adjustable (tema da novela ''Passione'')
02. Loving You Night and Day (Amo Noite e Dia) - feat. Jorge & Mateus
03. Mirror (Espelho) - feat. Jorge & Mateus
04. Rocket Man (tema da novela ''Tempos Modernos'')
05. Find Me (Primeiros Erros)
06. Think of Me (Pensa em Mim)
07. Silly Games (Falando Sério)
08. A Place in the Sun (Onde Haja Sol)
09. I'll Help You Stay (tema da novela ''Insensato Coração'')
10. Rocket Man (Maestro Billy Remix)

Tenha acesso a este material precioso 15 anos após seu lançamento!

Clique AQUI para baixar em FLAC (Lossless).

Vox 90 FM - Vox Country Music (1997)

Nada aqui vai ser desenterrado sem contextualização histórica, prometo! É hora de falarmos sobre como a invasão da Country Music aconteceu especificamente no interior paulista.

Dominado pelas grandes Festas do Peão, realizadas sempre durante o outono brasileiro, o interior paulista viveu uma verdadeira febre do gênero. As rádios foram tomadas por nomes como Alan Jackson, Garth Brooks e Shania Twain ao longo da programação diária, enquanto muitas duplas sertanejas absorviam elementos da cultura country nos arranjos de suas canções, com pompa elaborada por produtores musicais que realmente estudavam o que de melhor acontecia no Tio Sam, como Sérgio Carrer (Feio), Cesar Augusto, Paulo Debétio, Juvenil José de Lacerda (Pinocchio), Fátima Leão e até mesmo Xororó.

O que você verá é uma coletânea elaborada pela FM Vox 90, emissora que até hoje opera em Americana na frequência 90,3 MHz. Na década de 90, a rádio possuía um programa exibido todos os domingos, das 17h às 19h, dedicado ao melhor da Country Music e do Sertanejo de Rodeio.

A curadoria musical, realizada meticulosamente pelo Chileno — programador da rádio na época —, mergulhava nos melhores fonogramas da gravadora BMG. Também era costume da emissora compartilhar parcerias de programação e estilo musical com rádios da região. Há registros de que a FM Onda Livre, de Piracicaba, mantinha um programa semelhante ao da Vox, comercializando localmente um CD de repertório parecido e até capa semelhante, sendo mencionado inclusive que o “modelo” fotografado pertencia à família de executivos da rádio piracicabana.

Cabe dizer ainda que este CD foi produzido exclusivamente para ser sorteado entre os ouvintes do programa. O público precisava deixar o nome aos domingos e permanecer sintonizado até o encerramento da atração para descobrir se havia sido contemplado com a trilha sonora oficial do programa. Muito bacana!

Faixas: 
01. Chattahoochee - Alan Jackson
02. My Maria (Dance Mix) - Brooks & Dunn
03. Summertime Blues - Alan Jackson
04. Cherokee Boogie - BR5-49
05. It's Lonely Out There - Pam Tillis
06. A Man This Lonely - Brooks & Dunn
07. Little Bitty - Alan Jackson
08. The Answer Is Yes - Michelle Wright
09. Mama Don't Get Dressed Up for Nothing - Brooks & Dunn
10. Livin' on Love - Alan Jackson
11. 1, 2, 3 - Gian & Giovani
12. Não Vivo Sem Você - Gian & Giovani
13. Ferreirinha - Chrystian & Ralf
14. Bailão de Peão - Chitãozinho & Xororó

Para baixar este CD Promocional em FLAC, clique AQUI.

Band FM Sat - Country Ballads (1997)


Não sei em que estado você, leitor, mora, mas vou contar sobre um fenômeno que aconteceu a partir de 1995: a invasão da Country Music nas FMs e a presença de hinos do gênero nas baladas. Pelo menos aqui no Estado de São Paulo, isso ultrapassou os limites dos rodeios e virou uma febre ainda maior que a provocada pela novela “América”, em 2005.

Em 1997, a Band FM Sat, em parceria com a gravadora MCA/Universal Music Brasil (que ainda não havia se fundido à PolyGram), lançou a coletânea Country Ballads. As canções tocavam no Love Line e também na programação normal da emissora. Tudo parecia um rolê aleatório… até você pôr o CD para tocar e acabar contagiado por aquele amor brejeiro.

Se tem uma coisa que me fisga, é balada romântica country. Assim como as canções sertanejas, elas mexem fundo ao abordar amores antigos, relacionamentos que nasceram da amizade, solidão, saudade de alguém que partiu, casamento, família, traições e corações partidos. E tudo isso embalado por arranjos luxuosos, que os norte-americanos sabem fazer como ninguém. 

Grato a Marco Simões pelo marketing estratégico. Não te conheço, mas você foi mitológico na elaboração desta curadoria musical de valor inestimável!

A coletânea inclusive bebe da fonte do canal Country Music Television Brasil ao apresentar canções que pintavam em programas como Cantarolando — aquele especial dedicado a um artista, com letras traduzidas —, o Top 12 Countdown — a parada country no eixo Estados Unidos-Brasil — e o Café da Manhã, programação que transitava entre baladas românticas e clássicos do Country.

Destaco “On My Own”, conhecida no Brasil na versão de Patti LaBelle e Michael McDonald. Aqui, a canção ressurge como uma legítima country ballad nas vozes de quatro potências do gênero: Reba McEntire, Marty Stuart, Trisha Yearwood e Martina McBride.

Confira o CD:
01. Just When I Needed You Most - Dolly Parton
02. The Keeper of the Stars - Tracy Byrd
03. On My Own - Reba McEntire feat. Marty Stuart, Trisha Yearwood & Martina McBride
04. Shelter From the Storm - Marty Stuart
05. The Song Remembers When - Trisha Yearwood
06. I Cross My Heart - George Strait
07. She's Really Something to See - David Lee Murphy
08. Pretty Little Adriana - Vince Gill
09. It Ain't Gonna Worry My Mind - George Jones
10. I Didn't Know My Own Strength - Bobbie Cryner
11. Somebody Knew - Rhett Akins
12. Something Stupid - The Mavericks with Trisha Yearwood

Apaixonante, não? Baixe em FLAC, clicando AQUI.

Yahoo - Pára-Raio (1992)


Lançado em 1992, Pára-Raio marcou uma nova fase na trajetória do grupo Yahoo. Após um ano sem inéditas, a banda retornou apostando em uma sonoridade mais voltada ao hard rock melódico que dominava as rádios do início da década de 1990, sem abandonar o romantismo característico de sua identidade musical.

A formação do período contava com Zé Henrique (baixo e vocal), Marcelo Azevedo (teclados, guitarra e vocal), Marcelão (bateria e vocal), Val Martins nos teclados e o guitarrista Sérgio Knust, que já acompanhava o grupo como músico contratado desde 1989 e acabou efetivado após a saída de Robertinho de Recife.

“Pára-Raio” contou com direção artística de Jorge Davidson e produção de Michael Sullivan. Seu repertório resgata diversos sucessos internacionais adaptados para o português, fórmula de forte apelo radiofônico explorada pelo Yahoo desde o primeiro álbum. Entre os destaques estão a faixa-título “Pára-Raio”, versão de “Hide Your Heart”, da banda Kiss, “Como o Vento”, adaptação de “Wind of Change”, do Scorpions, além de “Sozinho”, releitura de “Reflections of My Life”, originalmente gravada pelo The Marmalade.

Outro momento importante do álbum foi a gravação da tocante balada “Paixão Esquecida”, composta com muita sensibilidade por Renato Terra e escolhida como tema da personagem Clarice (Regina Braga) na novela Deus Nos Acuda (TV Globo, entre 1992 1993), mantendo o Yahoo em evidência no rádio e na TV durante aquele período.

Apesar de o álbum não ter emplacado faixas entre as mais tocadas do Hot 100 Brasil de 1992 ou 1993, “Paixão Esquecida” teve forte presença em programas radiofônicos dedicados a temas românticos. Outra canção bastante executada foi “Volta pra Casa”, embora não tenha alcançado a mesma repercussão de “Sozinho”, sucesso marcante no interior paulista que chegou a permanecer durante muitos meses na programação de emissoras como Vox 90 FM, Fraternidade FM e Estereosom FM. O reconhecimento desse êxito acabou refletido na inclusão da faixa na coletânea A Magia dos Anos 90, lançada em CD no ano 2000.

Faixas:
1. Sozinho (Reflections Of My Life)
2. Volta Pra Casa
3. Pára-Raio (Hide Your Heart)
4. Um Momento De Amor
5. Sonhando Acordado
6. Amor Escondido
7. Ilusões E Desejos
8. Fora Da Lei (Como Dizia Mike Tyson)
9. Como O Vento... (Wind Of Change)
10. Paixão Esquecida (Gisela)

Para baixar o álbum em FLAC, clique AQUI.

Sheryl Crow - The Unreleased First Album (1992)

Em 1991, pouco depois de assinar contrato com a A&M Records, Sheryl Crow entrou em estúdio para gravar aquele que seria seu álbum de estreia em uma grande gravadora. Produzido entre 1991 e 1992 ao lado do renomado produtor Hugh Padgham – que no ano seguinte produziria "Ten Summoner's Tales" do cantor Sting –, o disco homônimo Sheryl Crow chegou a ser concluído e preparado para lançamento oficial em 22 de setembro de 1992.

O projeto, no entanto, jamais chegou às lojas. Tanto a cantora quanto a gravadora consideraram o resultado “produzido demais”, distante da espontaneidade e da identidade artística que Crow buscava naquele momento. A própria artista descreveu este trabalho como “maduro demais”, enquanto a A&M estava alinhada com a decisão da artista, acreditando em um trabalho mais orgânico e acessível para a geração de jovens da década de 1990. Em comum acordo, o álbum foi arquivado.

Antes do cancelamento, algumas poucas cópias promocionais em fita cassete chegaram a ser produzidas pela gravadora, acompanhadas de press kits oficiais preparados para divulgação à imprensa e rádios. Essas fitas nunca chegaram a uma distribuição comercial ampla, tornando-se posteriormente itens raríssimos entre colecionadores. Décadas depois, exemplares passaram a aparecer ocasionalmente em plataformas de leilão e colecionismo, enquanto o conteúdo completo do álbum acabou vazado na internet.  

O release preparado pela gravadora destacava participações de músicos como Dominic Miller, Vinnie Colaiuta e Pino Palladino, além de uma colaboração especial de Don Henley na faixa “What Does It Matter”. O texto promocional apresentava Crow como uma compositora sofisticada, autora de “canções pop sombrias”, escritas durante um período turbulento de sua vida pessoal e profissional.

Embora tenha sido arquivado antes de seu lançamento oficial, o álbum Sheryl Crow acabou deixando rastros importantes na música pop dos anos 90. Antes mesmo de alcançar fama mundial, Sheryl Crow já era considerada uma artista em ascensão, aparecendo discretamente em trilhas sonoras e colaborações. A faixa “Hundreds of Tears”, presente neste álbum cancelado, teve uma gravação anterior que integrou a trilha sonora do filme Point Break (Caçadores de Emoção, no Brasil).

Outra composição ligada ao projeto, “All Kinds Of People”, escrita em parceria de Crow com Kevin Gilbert, ganharia diferentes interpretações ao longo da década. A música foi gravada por Tina Turner em seu álbum Wildest Dreams (1996), além de ter sido lançada pelo grupo Big Mountain no álbum Free Up (1997). No Brasil, a faixa tornou-se conhecida ao integrar a trilha sonora da novela Malhação em 1998.

A cantora cristã Susan Ashton também reinterpretou parte desse repertório em seu álbum A Distant Call, incluindo versões de “All Kinds Of People” e “Hundreds of Tears”.

Outra curiosidade envolve “Love You Blind”: a canção já havia sido gravada por Celine Dion em 1989, durante as sessões do álbum Unison. A gravação acabou sendo lançada oficialmente em 1992 como lado B do single “If You Asked Me To”.

Após o engavetamento do projeto, Sheryl Crow retornaria ao estúdio para reconstruir sua estreia artística em uma direção mais crua e informal. O resultado seria o aclamado álbum Tuesday Night Music Club, lançado em 1993 e responsável por transformá-la em um fenômeno internacional.

Recentemente, tive acesso aos arquivos em FLAC provenientes de uma dessas raríssimas fitas promocionais e realizei um processo completo de restauração sonora. A transferência recebeu tratamento de abertura de áudio e recuperação de equalização por meio do plug-in U-He Satin, buscando restaurar o brilho e a definição parcialmente abafados pela transcrição original do cassete. Como consequência natural desse processo, parte do ruído de fita tornou-se mais evidente, exigindo posteriormente uma drenagem e redução agressiva de ruído através da ferramenta de IA MVSep, preservando ao máximo a integridade musical e o caráter original das gravações — algo praticamente impossível em ferramentas tradicionais de redução de ruído, como Hiss Removal ou Noise Reduction convencionais, que frequentemente “metalizavam” o áudio e comprometiam transientes, ambiência e textura musical. 

Neste caso, o processamento baseado em treinamento neural permitiu uma separação muito mais precisa entre o conteúdo musical e o ruído de fita, resultando em uma restauração significativamente mais transparente e natural. Por esta razão, o resultado final impressiona. É, senão, uma das apresentações mais limpas e detalhadas já extraídas desse álbum engavetado de 1992, revelando nuances de produção e interpretação que muitas versões circulando online simplesmente enterravam sob chiado e degradação da fita.

Talvez o maior conflito envolvendo Sheryl Crow (1992) tenha sido justamente sua identidade artística. O álbum refletia fortemente o universo musical que cercava Sheryl Crow naquele período: músicos de altíssimo refinamento técnico, produção meticulosa e composições marcadas pela sofisticação melódica do pop adulto norte-americano do fim dos anos 80 e início dos 90. Ecos de artistas como Toto, Stevie Wonder, Kenny Loggins e até Michael Jackson parecem atravessar discretamente várias dessas gravações.

Não por acaso: antes da fama, Crow viveu intensamente os bastidores da indústria musical norte-americana como backing vocalista e colaboradora de estrada, absorvendo justamente esse padrão de excelência artística e precisão de estúdio. O resultado foi um álbum sofisticado, tecnicamente refinado e, em muitos momentos, distante da identidade folk-rock mais espontânea e interiorana que ela posteriormente escolheria para si.

Talvez tenha existido o receio de que aquelas canções acabassem definindo artisticamente uma versão de Sheryl Crow que ela própria não desejava — ou não acreditava conseguir sustentar a longo prazo. Ao abandonar esse projeto, Crow parece ter voltado simbolicamente às próprias raízes no Missouri, aproximando-se do folk, do country e de uma estética mais orgânica que culminaria em Tuesday Night Music Club.

Ainda assim, parte da força desse álbum cancelado está justamente em revelar uma outra possibilidade de carreira. Faixas como “All Kinds Of People”, coescrita com Kevin Gilbert, carregam uma luminosidade melódica quase solar — característica que seria posteriormente potencializada pela leitura reggae do Big Mountain e reinterpretada com elegância pop sofisticada por Tina Turner. Mesmo arquivado, Sheryl Crow permanece como um fascinante retrato de uma artista em pleno processo de definição de sua própria identidade.

Faixas:
01. All Kinds Of People
02. Father Sun 
03. What Does It Matter - feat. Don Henley
04. Indian Summer
05. I Will Walk With You
06. Love You Blind
07. Near Me
08. When Love Is Over 
09. You Want It All 
10. Hundreds Of Tears 
11. The Last Time
12. On Borrowed Time

Para baixar este álbum remasterizado em FLAC, clique AQUI.
 

quarta-feira, 20 de maio de 2026

Sobre pedidos, remasterizações e o propósito do Gazeta do Som

O Gazeta do Som nasceu com uma proposta muito específica: preservar, digitalizar e remasterizar materiais raros e fora de catálogo dentro de um padrão técnico e editorial que considero adequado para publicação.

Com o tempo, o blog passou a receber muitos pedidos personalizados de discos, trilhas e raridades. Fico feliz pelo interesse e carinho de quem acompanha o projeto, mas é importante deixar claro que nem todo material solicitado será produzido, publicado ou priorizado.

Existem casos em que:

  • o disco possui qualidade de gravação muito limitada;
  • o estado físico do LP inviabiliza uma remasterização satisfatória;
  • o material nunca teve lançamento oficial em determinado formato;
  • ou o resultado final simplesmente não atinge o padrão que considero aceitável para o blog.

Além disso, cada trabalho envolve tempo, pesquisa, captura, limpeza, edição, revisão e organização de arquivos. O Gazeta do Som não funciona como serviço sob demanda nem como central automática de pedidos.

Em alguns casos, posso disponibilizar apenas capturas brutas ou rascunhos técnicos para fins pessoais de quem solicitou o material, sem que isso represente publicação oficial no blog ou continuidade do projeto.

Peço também compreensão quanto à insistência em determinados pedidos. Quando um projeto é encerrado ou recusado, normalmente isso acontece por limitação técnica, curatorial ou por coerência com a proposta do próprio blog.

Quem quiser colaborar com o crescimento do projeto pode ajudar de diferentes formas:

  • enviando materiais raros para digitalização;
  • compartilhando informações, curiosidades e dados históricos;
  • contribuindo com capas, encartes e arquivos de referência;
  • ou ajudando a viabilizar a aquisição e restauração de determinados discos (chave pix: gazetadosom@gmail.com).

Toda colaboração genuína ajuda o Gazeta do Som a continuar preservando memórias musicais que muitas vezes já desapareceram do mercado oficial.

O objetivo do Gazeta do Som continua sendo preservar memória musical com cuidado, critério e respeito ao material original — sempre dentro dos limites humanos e técnicos possíveis.