quarta-feira, 1 de julho de 2026

Rock Memory - Sozinho na Cidade (1987)

Fundada em 1981 por Fábio Cirello, a Rock Memory tornou-se presença constante no circuito paulistano ao longo da década de 1980, período de grande efervescência cultural e diversidade musical no Brasil. Com uma proposta que transitava entre o revival de clássicos do rock e a produção autoral, o grupo conquistou uma base fiel de admiradores e manteve viva a estética do rock clássico em um cenário musical em transformação.

Ao longo de sua trajetória, a banda se apresentou em casas emblemáticas da capital paulista, como Woodstock, Café PiuPiu, Café Pedaço e Calabar. A formação original reunia Fábio Cirello (teclados e vocais), John Kurk (guitarra base e vocais), Ricardo Brasa (bateria), Eduardo Leão (baixo e vocais) e Alex Fornari (guitarra solo e vocais), estrutura que sustentou a fase mais produtiva do grupo.

Esse período resultou em uma discografia composta por três LPs temáticos — Anos 60, Anos 70 e Anos 80 — além do álbum autoral Sozinho na Cidade, todos lançados pela gravadora Continental. Em 1991, esse conjunto de trabalhos foi reunido na coletânea comemorativa 10 Anos de Rock Memory, que consolidou a primeira década de atuação da banda.

Entre os trabalhos autorais, Sozinho na Cidade destacou-se como um dos registros mais importantes da trajetória do grupo. A faixa-título, assinada por John Kurk e Eduardo Leão, tornou-se o principal destaque do disco. Também chamam atenção “Lig Lig”, versão em português de Liebe Ist Gesund, de Gunther Sigl, adaptada por Fábio Cirello, e “Apocalipser”, composta por Cirello e Cleo Toledo — todas posteriormente incluídas na coletânea comemorativa.

O álbum foi gravado no Estúdio Transamérica, com produção de Paulo Ferreira em parceria com a própria banda. A direção artística ficou a cargo de Wilson Souto Jr., enquanto os arranjos foram assinados coletivamente pelo grupo.

Ao longo dos anos, a formação passou por mudanças significativas. Eduardo Leão permaneceu na banda por oito anos, desde a fundação, contribuindo diretamente em quatro das seis composições autorais do grupo. Sua saída ocorreu após a criação da Rockover, sendo substituído por Renato Muniz.

Em 1991, John Kurk também deixou a formação para integrar a Paris Supertramp, projeto dedicado ao repertório da banda inglesa Supertramp. Posteriormente, Kurk se reuniria novamente com Eduardo Leão na Rockover, permanecendo em atividade por mais de uma década em projetos derivados, incluindo a Rockstock e, mais tarde, o Mr. Kurk, até seu falecimento em 2017, aos 69 anos.

A Rock Memory segue em atividade até hoje, com mais de quatro décadas de estrada, mantendo em seu repertório tanto o rock clássico quanto suas composições autorais, preservando uma trajetória singular no circuito musical paulistano.

Faixas: 
01. Constituir (Uma Revolução)
02. Lig Lig (Liebe Ist Gesund)
03. Senado Romano
04. Sozinho na Cidade
05. Aspire
06. Apocalipser

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terça-feira, 30 de junho de 2026

Renato Aragão - O Forró dos Trapalhões (1981)

Lançado em LP e K7 pela Ariola em 1981, O Forró dos Trapalhões chegou às lojas em um momento em que o quarteto vivia o auge da popularidade na televisão. Embora o repertório conte com as participações de Dedé Santana e Zacarias, o álbum foi oficialmente lançado em nome de Renato Aragão. Mussum, por sua vez, não integra as gravações, período em que também desenvolvia sua carreira fonográfica em lançamentos de samba pela RCA.

Inspirado nas tradicionais festas juninas, o disco confirma que Os Trapalhões já exploravam o mercado fonográfico por meio de álbuns temáticos. O repertório reúne forrós, baiões e canções bem-humoradas que dialogavam diretamente com o sucesso do grupo na televisão e com o universo das festas populares brasileiras.

Com direção artística de Marco Mazzola e produção de Luiz Cláudio Varella, o álbum combina forró, baião e outras sonoridades nordestinas ao humor característico dos Trapalhões. Entre os destaques está a participação especial de Sivuca na faixa "Seca e Chuva", reforçando a proposta musical do projeto.

Entre as nove faixas está "O Casamento da Filha do Faceta", única música do álbum disponibilizada oficialmente nas plataformas digitais, ao integrar a coletânea Festa no Arraial, lançada pela Universal Music em 2016, sob curadoria do jornalista Rodrigo Faour. Vale lembrar que a canção já havia sido apresentada ao público no álbum Os Trapalhões na TV, lançado pela Som Livre em 1979, que reunia áudios memoráveis do humorístico. É dessa gravação que muitos se recordam de Zacarias, vestido de filha caipira, dizendo: "Papai, eu quero me casar", seguido pela resposta de Renato Aragão, caracterizado como Faceta: "Pois, minha fia, ocê diga, com quem?", Para O Forró dos Trapalhões, a canção ganhou sua primeira versão musical completa, em ritmo de forró pé de serra, adaptada ao conceito do álbum.

Permanecendo inédito no meio digital por mais de quatro décadas, O Forró dos Trapalhões passa agora a ser disponibilizado pela primeira vez na íntegra na internet, em versão remasterizada a partir do LP original, preservando um capítulo pouco conhecido da discografia dos Trapalhões e da música popular brasileira.

Faixas:
01. A Velha Debaixo da Cama
02. Belorizonten - part. esp. Zacarias
03. As Pessoas e a Espingarda (A Mulher e a Espingarda) - part. esp. Dedé Santana
04. Rio de São Sebastião - part. esp. Dedé Santana e Zacarias
05. Seca e Chuva - part. esp. Sivuca
06. Terral
07. Cajuína
08. O Casamento da Filha do Faceta - part. esp. Zacarias
09. O Pau de Arara - part. esp. Dedé Santana e Zacarias

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Kiko e Kika - O Sapo Cantador (1987)

 

Lançado pela gravadora Copacabana em 1987, Kiko e Kika surgiu em um dos períodos mais férteis do mercado fonográfico infantil brasileiro. A segunda metade dos anos 1980 foi marcada pela expansão de coletâneas temáticas, personagens licenciados e artistas voltados ao público infantil, muitos deles derivados de programas de televisão ou concebidos especialmente para esse segmento, que vivia um momento de grande efervescência comercial.

Para dar personalidade aos sapos, as músicas utilizavam o efeito vocoder, responsável pelo timbre característico que remetia ao coaxar dos personagens. Embora o disco apresentasse dois protagonistas, Kiko e Kika não eram interpretados por uma dupla de cantores: todas as vozes foram gravadas por Jorge Gambier, que recorria ao processamento eletrônico para criar a convincente ilusão de dois personagens distintos. Vale diferenciar o vocoder — recurso amplamente empregado na disco music dos anos 1970 — do auto-tune moderno, utilizado principalmente para correção de afinação e como efeito vocal.

Produtor atuante na indústria fonográfica brasileira desde a década de 1970, Jorge Gambier foi o idealizador de Kiko e Kika e já havia assinado outros trabalhos de sucesso na Copacabana, como Disco Baby — que deu origem ao grupo As Melindrosas, formado pelas irmãs de Gretchen — e Os Três Patinhos (1980), outro projeto que explorava vozes processadas eletronicamente.

Antes de ganhar um álbum próprio, porém, Kiko e Kika estrearam no compacto "O Sapo Cantador", posteriormente incluído na coletânea No Mundo da Criança. Nos primeiros encartes, os personagens apresentavam um visual bastante diferente daquele que se tornaria mais conhecido: ilustrações inspiradas em esculturas de papel machê, desenvolvidas pela Casinha de Animação, conferiam aos sapos uma identidade visual singular para a época.

O álbum reúne 12 faixas que misturam canções tradicionais de domínio público, cantigas de roda e versões curiosas de sucessos populares, como "A Perereca da Vizinha", de Dicró, o clássico sertanejo "Fuscão Preto" e temas festivos como "Parabéns a Você". Como atrativo adicional, a parte frontal do encarte podia ser colorida pelas crianças.

A produção foi desenvolvida pela Som Indústria e Comércio S.A. (Copacabana Discos), a partir de uma concepção de Jorge Gambier, sob direção artística de Juvenal de Oliveira. As gravações ficaram a cargo dos técnicos Paulo Jurazo, Getúlio B. C. Júnior e Zécafi, enquanto a mixagem foi realizada por Paulo Jurazo e Getúlio B. C. Júnior. O corte do LP foi executado por Getúlio B. C. Júnior e a montagem ficou sob responsabilidade de Leandro E. Grandi, equipe que contribuiu para transformar a proposta de Gambier em um disco que soube combinar recursos eletrônicos, repertório infantil e uma identidade sonora bastante peculiar.

Para divulgar o lançamento, a Copacabana confeccionou fantasias dos personagens e escalou dois atores para interpretá-los em apresentações na televisão. Kiko e Kika participaram de programas infantis comandados por Xuxa, Mara Maravilha, Sérgio Mallandro e Angélica, além de atrações voltadas ao público adulto, como os programas de Chacrinha e Bolinha, ampliando a visibilidade do projeto em um período de forte concorrência no mercado infantil.

Faixas:
01. A Perereca Da Vizinha
02. O Computador (Computer)
03. Sapinho Encantado
04. Sapo Louco (Poco Loco)
05. Parabéns À Você
06. O Bom Menino
07. O Sapo Cantador (Do The Frogleg)
08. O Sapo
09. Pi Piruli (Ti Tiroli) (Qua Qua Qua)
10. Noite Feliz (Stille Nacht, Hellige Nacht) / Boas Festas
11. Gatinha Parda / Passarás, Passarás / Sapo Cururu
12. Fuscão Preto

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segunda-feira, 29 de junho de 2026

MPB4 - Tempo Tempo (1982)

Lançado em 1982 pela Ariola, Tempo Tempo marca um dos momentos mais interessantes da trajetória do MPB4. Em plena efervescência criativa da música brasileira, quando festivais como o MPB-80 e o MPB Shell revelavam novos compositores e aproximavam diferentes linguagens musicais, o quarteto demonstrava estar atento às transformações daquele cenário. Sem abrir mão da sofisticada identidade vocal que o consagrou desde os anos 1960, o grupo construiu um álbum que dialoga com a produção contemporânea e, ao mesmo tempo, reafirma o objetivo de comunicar a identidade artística do MPB4 ao grande público.

Essa característica se revela logo na escolha do repertório. Em vez de seguir uma única linha estética, com compositores tradicionais, Tempo Tempo estabelece uma ponte entre diferentes vertentes da canção brasileira. O disco abre com o samba Cavalo de Batalha um hino ao povo brasileiro que sofre mas não desiste das lutas diárias e traz uma mensagem de esperança em um tempo de transição rumo às Diretas Já, composto por Miltinho, José Renato (Boca Livre) e Paulo César Pinheiro – este, parceiro recorrente de Ivan Lins –, e  encerra sua sequência com a delicada Oração ao Tempo, de Caetano Veloso, comunicando que mesmo em meio a um processo de luta, era preciso calma e esperança para vencer os desafios da vida.

Em termos de renovação e busca de ares fora do grupo, o álbum apresenta Anjo Sereia, parceria entre Miltinho e Alceu Valença; traz O Gato (Teorema), de Danilo Caymmi e Paulo Jobim, reunindo duas importantes linhagens da música brasileira; resgata Desmame, de Renato Rocha, compositor ligado à cena pernambucana e parceiro de Geraldo Azevedo; e inclui Batalha, marcha composta por Paulo Rafael, guitarrista cuja trajetória atravessa experiências marcantes como o Ave Sangria e, posteriormente, a banda de Alceu Valença.

Mais do que uma simples reunião de canções, o álbum revela a impressionante capacidade do MPB4 de transformar essa diversidade em unidade. Samba, música nordestina, canção urbana, influências do jazz, da música instrumental e até ecos do rock psicodélico convivem naturalmente ao longo do disco, sem que em nenhum momento a identidade do grupo seja diluída. Pelo contrário: são justamente os característicos arranjos vocais do quarteto que funcionam como elemento de coesão, fazendo com que composições de universos tão distintos passem a integrar um mesmo discurso musical.

Um aspecto que a ficha técnica de Tempo Tempo deixa particularmente evidente é que o MPB4 jamais se limitou à condição de um quarteto vocal. Embora reconhecido pelo refinamento de suas harmonizações, o grupo também desempenhava um papel decisivo na concepção musical de seus discos. Em Tempo Tempo, essa característica aparece de forma inequívoca: Antonio José Waghabi Filho, o Magro, assina a maior parte dos arranjos, orquestrações e regências, enquanto Ruy Faria e Miltinho também contribuem como arranjadores em faixas específicas, evidenciando que a identidade sonora do álbum nasce no próprio grupo.

Gravado nos estúdios da SIGLA e reunindo alguns dos músicos mais respeitados da cena brasileira, o álbum, que tem Marco Mazzola na direção artística, ainda conta com nomes como Cesar Camargo Mariano, José Roberto Bertrami, Hélio Delmiro, Wilson das Neves, Márcio Montarroyos, Gilson Peranzzetta, Sivuca, Paulo Rafael, Danilo Caymmi e uma extensa formação de sopros e cordas. Longe de representar um desfile de participações especiais, cada músico contribui para ampliar a paleta sonora do disco, sempre em função das canções.

O repertório também dialogava com obras que ocupavam lugar de destaque naquele momento. A presença de Magia, composta por Kleiton Ramil e Magro, aproximava o grupo do grande público ao integrar a trilha sonora da novela Sétimo Sentido, exibida pela Rede Globo em 1982. Já a canção Almanaque, trata de incorporar uma canção de Chico Buarque, lançada pouco antes no álbum homônimo do compositor, reforçando o interesse do quarteto por compositores que continuavam renovando a música popular brasileira.

Mais de quatro décadas depois, Tempo Tempo permanece como um retrato de um período especialmente fértil da produção musical brasileira. Um tempo em que as fronteiras entre estilos pareciam menos importantes do que a força das boas canções; em que músicos vindos do samba, da MPB, da música nordestina, do jazz, da música instrumental e até do rock podiam compartilhar o mesmo estúdio e construir uma obra de rara coerência artística. O MPB4 compreendeu esse espírito e o traduziu em um álbum que continua recompensando audições atentas, revelando, faixa após faixa, a riqueza de um dos momentos mais criativos da música brasileira.

Embora a Universal Music detenha atualmente o catálogo oriundo da PolyGram e de selos como Ariola, Barclay, Elenco, Lança e Polydor, o álbum jamais recebeu uma edição digital completa a partir de suas masters originais. Como consequência, uma obra representativa de um dos momentos mais criativos da música brasileira permanece praticamente inacessível às novas gerações, tendo apenas a faixa Almanaque ao acesso do público por meio das coletâneas Millennium e Sem Limite. 

Em algum momento, a identidade artística de discos como Tempo Tempo parece ter deixado de interessar às sucessoras da PolyGram. A partir da consolidação dos projetos conjuntos entre MPB4 e Quarteto em Cy, o repertório do quarteto masculino passou a ser revisitado quase sempre sob a lógica das coletâneas, privilegiando as canções mais batidas, diluindo a personalidade dos álbuns originais. O resultado dessa política editorial é perceptível até hoje: enquanto compilações se sucedem, obras concebidas como experiências completas permanecem ausentes do mercado digital, impedindo que novas gerações conheçam canções interessantes e o contexto em elas nasceram.

Talvez seja justamente essa a maior injustiça cometida com Tempo Tempo. Lançado em uma fase de intensa renovação estética do MPB4, o álbum acabou obscurecido por uma memória discográfica que privilegia quase sempre os grandes marcos da década de 1970. Ao permanecer inédito no ambiente digital, deixa de contar a história de um grupo que, longe de repetir fórmulas, continuava experimentando, dialogando com novos compositores e reafirmando sua capacidade de reinventar a própria linguagem.

Disponibilizar este disco por meio de um projeto independente não significa apenas recuperar um álbum fora de catálogo. Significa devolver ao público uma obra que permanece relevante por sua inventividade, permitindo que uma nova geração descubra outras possibilidades sonoras da música brasileira e ressignifique um capítulo injustamente esquecido de nossa produção fonográfica.

Faixas:
01. Cavalo de Batalha
02. Mulher Maio
03. O Gato (Teorema)
04. Anjo Sereia
05. Almanaque
06. Magia
07. Desmame
08. Doce, Doce
09. Batalha
10. Oração ao Tempo

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Tarancón - Terra Canabis (1986)

Formado em 1972, o Tarancón é um dos primeiros grupos brasileiros dedicados à pesquisa, divulgação e integração da diversidade de ritmos e canções da América Latina. Reunindo músicos de diferentes origens latino-americanas, o grupo construiu uma identidade própria ao fundir tradições folclóricas andinas, afro-latino-americanas e elementos da música popular brasileira.

A formação original contou com nomes como Miriam Miráh, Emílio de Angeles Nieto, Marli Pedrassa, Alice Lumi, Halter Maia, Jica Nascimento e Juan Falú. A partir do terceiro álbum, Sérgio Turcão substituiu Juan Falú, e ao longo das décadas o grupo passou por diversas formações. 

Lançado pela Continental em 1986, Terra Canabis marca a estreia do Tarancón na gravadora e sintetiza a proposta musical desenvolvida pelo grupo desde sua formação. Sob produção, direção musical e arranjos assinados pelo próprio Tarancón, o álbum combina composições autorais, adaptações e obras tradicionais latino-americanas em um repertório que transita entre diferentes matrizes culturais do continente.

A repercussão alcançada por "Mira Ira (Povo Mel)" no Festival dos Festivais, em 1985, encontra continuidade neste álbum. Registrada originalmente no disco oficial do evento pela gravadora Som Livre, a composição de Lula Barbosa e Vanderlei de Castro recebeu duas novas versões em 1986: uma no álbum Os Tempos São Outros (Selo CBS), de Lula Barbosa, com arranjo de Wagner Tiso, violão de Victor Biglione e participação vocal de Miriam Miráh; e outra em Terra Canabis, reunindo novamente Miriam Miráh e o grupo Placa Luminosa, reafirmando a importância da obra naquele momento da trajetória do Tarancón.

A própria ficha técnica evidencia a amplitude sonora de Terra Canabis. Os arranjos articulam instrumentos característicos da tradição musical latino-americana — como quena, zampoña, charango, cuatro, bombo, udu e moxeño — com piano, cordas, metais, saxofones, guitarra elétrica, viola caipira e uma ampla variedade de instrumentos de percussão. Longe de constituir um recurso meramente ornamental, essa diversidade instrumental traduz a identidade musical construída pelo Tarancón desde sua formação.

Os créditos revelam igualmente o caráter coletivo do álbum. Sérgio Turcão, Emílio de Angeles, Jica Nascimento, Jê e Miguel alternam funções instrumentais e vocais ao longo das faixas. Essa mesma diversidade se reflete na seleção das obras, que reúne composições dos integrantes do grupo, temas do folclore peruano e mexicano, peças de compositores latino-americanos como Eduardo Carrasco e Roberto Pernán e a releitura de "Eleanor Rigby", de Lennon e McCartney. Lula Barbosa também contribui como coautor de "Tomaracá", ao lado de Glads Jr., além de participar como convidado em "Suitenegra".

Faixas:
01. Gostosa
02. Eleanor Rigby
03. Tomaracá
04. Mira Ira (Povo Mel) (feat. Placa Luminosa,Miriam Mirah)
05. Contraste
06. Cholito Pantalón Blanco
07. Candombe Para José
08. Suitenegra (feat. Lula Barbosa)
09. Male Betulia

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Placa Luminosa - Neon (1982)

Lançado em 1982 pela Lança Discos, com fabricação e distribuição da PolyGram, Neon representa um dos momentos mais importantes da trajetória do Placa Luminosa. Muito antes da banda conquistar espaço nas rádios FM com os sucessos que marcaram o final da década de 1980 e o início dos anos 1990, o grupo vivia uma fase de intensa renovação artística, buscando uma identidade própria sem abrir mão do elevado nível técnico que sempre caracterizou seus integrantes.

A história do Placa Luminosa começou em 1977, quando a banda surgiu com uma proposta voltada ao rock progressivo e tinha Jessé como vocalista. Nos anos seguintes, entretanto, o grupo passou por uma profunda transformação musical. Sem abandonar o refinamento instrumental herdado de suas origens, incorporou novas influências e passou a dialogar com a moderna linguagem da música popular brasileira que ganhava força nas rádios FM e nos grandes festivais do início da década de 1980.

Neon representa o momento em que o Placa Luminosa decidiu ampliar seus horizontes musicais. Sem abandonar o refinamento instrumental que o acompanhava desde os tempos do rock progressivo, a banda incorporou elementos do soul, do reggae, do samba-rock, do fusion e do jazz-funk para construir uma identidade pop absolutamente própria. O reconhecimento comercial ainda demoraria alguns anos para chegar, mas as bases da sonoridade que marcaria a trajetória do grupo já estavam solidamente estabelecidas neste álbum.

A formação registrada no álbum reúne:

  • Jota Moraes (teclados), 
  • Ari Nascimento (baixo), 
  • Luizão Gadelha (In Memoriam) (bateria e percussão), 
  • Riba Nascimento (In Memoriam) (guitarras, violões e vocais), 
  • Marcos Castro Assis (vocais), 
  • Fabinho Freire (vocais), 
  • Mário Lúcio Marques (saxofones e flauta) e
  • Nahor Gomes (trompete e flugelhorn)

O resultado é um conjunto extremamente equilibrado, capaz de alternar momentos de grande sofisticação instrumental com melodias acessíveis e arranjos vocais cuidadosamente elaborados.

As dez faixas demonstram a maturidade criativa do grupo. Compositores como Riba Nascimento, Mário Lúcio Marques, Fabinho Freire e outros parceiros próximos constroem um repertório variado, onde convivem grooves marcantes, harmonias refinadas, baladas e momentos instrumentais de grande riqueza musical. Faixas como "Os Olhos de Vera" e "Neon", ambas instrumentais, evidenciam o virtuosismo dos músicos sem que isso se sobreponha à musicalidade do conjunto.

Pouco depois do lançamento de Neon, o talento do Placa Luminosa ultrapassaria definitivamente os limites de sua própria discografia. A banda foi escolhida para acompanhar César Camargo Mariano na turnê brasileira do álbum A Todas as Amizades, gravado originalmente com músicos norte-americanos, e posteriormente tornou-se a banda de apoio de Ney Matogrosso no espetáculo Destino de Aventureiro. Essas experiências consolidaram a reputação do grupo como uma das formações mais competentes do país, abrindo caminho para a fase de maior projeção nacional que viria alguns anos mais tarde.

Mais de quatro décadas após seu lançamento, Neon continua despertando o interesse de pesquisadores, músicos e colecionadores por registrar um momento singular da música brasileira. O álbum documenta uma banda em plena transformação artística, refletindo uma época em que a MPB dialogava com diferentes influências internacionais sem perder sua identidade. Essa combinação entre criatividade, excelência técnica e autenticidade faz de Neon uma obra que permanece atual e merece ser redescoberta pelas novas gerações.

Para esta edição do Gazeta do Som, o álbum recebeu remasterização a partir das melhores fontes disponíveis, sendo adquirido na tradicional Feira de Discos de Nova Odessa através do expositor DJ Regi (Salto-SP). Além disso, as artes originais foram restauradas. Mais do que recuperar a qualidade sonora e visual deste trabalho, esta edição procura preservar um importante capítulo da história da música brasileira, permitindo que Neon seja ouvido e apreciado hoje com a mesma riqueza artística concebida por seus criadores em 1982.

Faixas:
01. Grande Circo Universal
02. Natureza
03. Vendaval
04. Os Olhos de Vera (Instrumental)
05. Quero Ver Girar
06. Luz
07. Mergulho
08. Fulano de Tal
09. Neon (Instrumental)
10. Veio D'Agua

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sexta-feira, 26 de junho de 2026

Leandro & Leonardo - Maggi, o Caldo Nobre da Galinha Azul (1993)



Entre os materiais promocionais mais curiosos envolvendo artistas da música sertaneja está esta rara fita cassete distribuída pela Maggi em parceria com a Chantecler. Produzida exclusivamente para uma ação promocional da marca, ela reúne seis grandes sucessos de Leandro & Leonardo e apresenta a exclusiva "Amor Com Tempero", gravação realizada especialmente para a campanha.

A seleção traz "Desculpe Mas Eu Vou Chorar", "Talismã", "Paz Na Cama", "Pense Em Mim", "Não Aprendi Dizer Adeus", "Entre Tapas E Beijos" e encerra com "Amor Com Tempero", faixa que permanece exclusiva desta fita promocional e representa um dos maiores atrativos do lançamento.

Esta publicação nasceu graças à colaboração do colecionador Gilmar Davel, de Cariacica (ES), integrante do fã-clube de Leandro & Leonardo. Após adquirir recentemente esta rara fita promocional, ele realizou a digitalização da fita em seu tape deck Kenwood e gentilmente compartilhou o arquivo com o Gazeta do Som para que este trabalho de preservação pudesse ser desenvolvido.

A restauração teve início com a remoção do ruído de fundo (hiss) por meio do algoritmo DeNoise, utilizando o modelo Gabox, preservando integralmente o conteúdo musical da gravação. Em seguida, foi aplicada uma nova equalização utilizando o Satin, complementada pelo recurso Clarity (Bright Drums) do iZotope Ozone,  buscando recuperar definição, presença e equilíbrio tonal sem descaracterizar a sonoridade original da fita.

Na etapa final, o áudio passou por normalização de volume e por uma criteriosa correção da velocidade de reprodução (pitch real) no Sound Forge, restabelecendo a afinação original das músicas. Com o pitch corrigido, também foi realizada uma nova indexação das faixas por meio de arquivo CUE, permitindo determinar suas durações exatas — informação ausente na embalagem original.

As imagens da fita passaram igualmente por um processo de restauração digital, recuperando a nitidez dos rótulos e preservando fielmente todas as informações impressas, sem reconstruções ou alterações de conteúdo.

Com 24 minutos e 12 segundos de duração, esta fita demonstra que seu objetivo nunca foi funcionar como uma coletânea convencional. Seu propósito era promover a parceria entre a Maggi e Leandro & Leonardo, reunindo alguns dos maiores sucessos da dupla ao lado de uma gravação exclusiva que, décadas depois, continua despertando o interesse de colecionadores.

O valor histórico desta fita torna-se ainda maior ao observar a autoria de "Amor Com Tempero". A composição é uma encomenda da Agência MCR e assinada por Cesar Brunetti, um dos mais importantes criadores de jingles da publicidade brasileira. Entre seus trabalhos mais conhecidos estão os inesquecíveis "Pipoca e Guaraná" e "Pizza com Guaraná", além da campanha dos bichinhos da Parmalat ("O elefante é fã de Parmalat...") e da canção-tema da primeira campanha presidencial vitoriosa de Fernando Henrique Cardoso. A presença de uma composição de Brunetti reforça que a Maggi investiu em um projeto publicitário de alto nível, reunindo uma das maiores duplas sertanejas do país e um compositor responsável por alguns dos jingles mais marcantes da televisão brasileira.

A canção "Amor Com Tempero" se tornou conhecida pela propaganda exibida na televisão no ano de 1993. Mais do que um simples brinde promocional, este lançamento constitui um importante documento da relação entre a indústria fonográfica e a publicidade brasileira, preservando um capítulo pouco conhecido da trajetória de Leandro & Leonardo e da própria história das campanhas promocionais da Maggi.

Faixas:
01. Desculpe Mas Eu Vou Chorar
02. Talismã
03. Paz Na Cama
04. Pense Em Mim
05. Não Aprendi Dizer Adeus
06. Entre Tapas E Beijos
07. Amor Com Tempero

Para baixar a Fita Promocional em FLAC, clique AQUI.