domingo, 8 de fevereiro de 2026

AdCanto - AdCanto (1982)

AdCanto (1982): A Arquitetura Sonora de uma Relíquia Mineira

O AdCanto é um quarteto vocal de multi-instrumentistas que apresenta uma sonoridade única, unindo a arte renascentista barroca à música mineira influenciada pelo Clube da Esquina. A formação clássica contava com Jairo Lara (guitarra, voz e flauta), Kiko Lara (baixo e violoncelo), Lemão Lara (bateria e voz) e Lou Petrus (violão, violino e voz).

Para entender a profundidade deste quarteto fantástico, é preciso olhar para a sua árvore genealógica. O nome AdCanto nasceu com uma formação original que incluía Eric Lara e seu irmão Geraldo Lara (Gê Lara). Com a morte precoce de Eric, o grupo original se dissolveu, mas em 1972 o nome foi generosamente cedido aos músicos do Grupo Fórmula — composto por Jairo Lara (irmão de Eric), Lemão Lara (irmão de Geraldo) e o primo Kiko Lara. Com a saída de Davi Dâmaso e a chegada do amigo Lou Petrus, a formação que faria história estava consolidada.

Sob a batuta de Túlio Mourão — o "quinto elemento" do grupo — essa nova formação do AdCanto elevou a música regional a um patamar universal. Eles criaram uma harmonia vocal que bebe direto da fonte renascentista e do canto gregoriano. Como relatado por Lou Petrus no canal Se Liga TV, essa essência barroca e erudita está entranhada na identidade de cada integrante.

Arquitetura Sonora e o Padrão RCA

A gênese deste LP de 1982 é fascinante. Segundo Kiko Lara (vocalista principal) relata em matéria recente da TV Alterosao grupo aproveitou uma brecha de apenas seis horas que sobraram da gravação do projeto MPBC - Vitrine, de Túlio Mourão, em 1980. Jairo Lara já havia participado deste disco tocando flauta e violão, e essa proximidade permitiu que o AdCanto mostrasse, finalmente, o que tinha em mente usando uma infraestrutura de elite.

Contudo, nota-se que o virtuosismo do quarteto original foi, em estúdio, emoldurado por uma "cozinha" de músicos transitórios de elite. Nomes como Luizão Maia, Picolé, Braz Limongi, Eduardo Souto Neto e Luiz Avelar até garantem um padrão ouro de perfeição técnica que, embora impecável, nem sempre refletia a dinâmica orgânica dos quatro tocando juntos.

Ao incluir nomes como o americano Scott Ackley na guitarra e o tcheco Zdenek Svab na trompa, a produção de Fernando Adour tentou conferir ao projeto um padrão internacional que por vezes sufocou a essência do grupo.

De fato, o grupo sempre afirmou o lirismo em seu DNA. Entrtanto essa essa tentativa de dar um "pedigree" de orquestra de câmara a um quarteto que nasceu da pureza dos corais de Minas acabou criando um som impecável, mas que sacrificou parte da essência mineira em favor das sutis pretensões da gravadora. É o registro de um momento onde a perfeição técnica colidiu com a alma de músicos que buscavam a verdade acima dos artifícios da indústria, mesmo sendo inegavelmente uma obra incrível e indispensável para a coleção de quem ama música brasileira de qualidade.

"Alma de Músico": O Manifesto do Hiato

O ponto central da obra é a canção "Alma de Músico", parceria de Túlio Mourão com Jairo Lara. Mais do que um sucesso que rivaliza com o hino oficial de Divinópolis, a letra funciona como uma filosofia que parece ter determinado o destino do grupo. Ao cantar "porque nunca troco nem por pão / minha alma de músico / prá cantar minha fé na gente", o AdCanto estabeleceu um limite ético.

O grupo desfez as atividades logo após o lançamento, e essa canção explica o porquê: o peso de não se deixar vender para manter a essência musical. O hiato, que durou décadas, foi o preço pago pela integridade artística, embora o tema central do documentário homônimo de Diego Lara não tenha sido totalmente revelado, ficando como um convite a todos para assistirem e descobrirem as nuances dessa história.

Gegê Lara – primo do documentarista e produtor musical –, abriu seu coração em depoimento para a matéria do programa Agenda (Rede Minas), expondo que, mesmo sem poder decisório sobre os desígnios do grupo, não queria que certas canções tivessem entrado para o repertório do disco se soubesse que aquele seria único registro fonográfico do AdCanto. Essa fala dele talvez dá pistas sobre o documentário que expõe de forma honesta a história dos quatro garotos de Divinópolis e de certa forma os reconecta para um possível retorno.

Ao observar as palavras de Lou Petrus deixadas em entrevista para o Canal Se Liga TV, percebe-se que o hiato, embora longo, não foi um ponto final, mas uma preservação. O desejo de reunião e a existência de material inédito mostram que a "Alma de Músico" nunca deixou de vibrar.

Nota sobre a remasterização

Para este registro digital do LP, foi utilizada uma agulha Ortofon Concorde Club (Elíptica), escolhida especificamente para garantir uma leitura com maior precisão dos sulcos e fidelidade à resposta de frequência original. O processo de remasterização contou com a redução de ruídos residuais através do MVSep DeNoise, preservando a dinâmica da obra e entregando uma clareza que faz justiça à sofisticação do quarteto divinopolitano.

Colaboração para estrutura textual: Gemini AI

Faixas: 
01. Riso do Verão
02. Navegante
03. Canção Morena
04. Canto Catalão de Natal
05. O Ouro da Estrada
06. Serenata pra São Jorge
07. Coração
08. Alma de Músico
09. União
10. Fuga
11. Nós Dois

Para baixar este álbum em FLAC, clique AQUI.

Intelligence - Intelligence (1986)

Intelligence (1986): O Supergrupo de Hard Rock que Conectou os EUA ao Brilhantismo da RCA

O Intelligence foi um quarteto de Hard Rock/AOR formado em 1986, liderado pelo guitarrista multi-instrumentista Claudio Celso. O projeto, que nasceu originalmente nos Estados Unidos, desembarcou em São Paulo para uma apresentação decisiva nos estúdios da RCA Victor, sob a direção artística de Miguel Plopschi e produção de Guti Carvalho.

O destino do álbum mudou na passagem de som: Simbas estava no comando do áudio e, ao "dar uma canja" com o grupo, impressionou tanto o produtor que o contrato foi condicionado à sua entrada definitiva. O resultado é um disco de sofisticação técnica internacional, sob a produção executiva de Frankye Arduini e a gerência de Reinaldo B. Brito.

Nivaldo Naves Horas, ou Simbas, é cantor consagrado do rock nacional paulistano. Foi membro das bandas Hydra – a primeira a gravar "Homem Com H" em 1974", Casa das Máquinas, Tutti Frutti. Já usou o pseudônimo Roger Scott, artefato de falso gringo para gravar um compacto pela Copacabana. Nos últimos anos, Simbas também atuou com a banda Dr. Fritz, além de ser empresário no ramo de sonorização e diretor técnico da rede de bares Brahma de São Paulo. Fez parte dos jurados do programa "Canta Comigo" (Record TV) no anos 2018 e 2019. 

A Cozinha de Elite: Os Irmãos Infantozzi 

A força do Intelligence reside na simbiose entre músicos que já eram referência absoluta no cenário brasileiro:

  • Claudio Celso: O arquiteto das cordas, trazendo a bagagem do Fusion e do Hard Rock americano para as composições. Residindo vários anos nos Estados Unidos, tocou com diversas lendas da música internacional como Jaco Pastorius, Chet Baker, e Roberta Flack, foi guitarrista do trombonista Raul de Souza de 1986 a 1989 e, no início dos anos 90, tocou com Marisa Monte na turnê "Mais" quando ela excursionou pelos Estados Unidos. No período que fixou residência no Rio de Janeiro, compôs o tema para a Eco 92 e, ao lado de Phillipe Neiga compôs e produziu diversos jingles para a Coca-Cola, Texaco, Amil e Bob's. Outro grande marco seu na história do rock nacional foi a formação com Vera Negri em 1991 o duo Comando Negri.

  • Pedro Infantozzi (In Memoriam): Um dos baixistas mais precisos do país, cuja linha melódica é a espinha dorsal do álbum, ao lado do irmão integrou a banda Mona e Joelho de Porco.

  • Albino Infantozzi: Pela sua precisão ritmica e habilidade técnica, é um dos bateristas mais requisitados do país, tendo trabalhado em estúdio para álbuns de artistas como Chitãozinho & Xororó, Raul Seixas, Conrado, Zezé di Camargo & Luciano, Gang 90 & The Absurdetes, Pedro Mariano, Leandro & Leonardo, Família Lima, Ângela Maria, Guilherme Arantes. Marlon & Maicon, Gino & Geno, Milionário e José Rico e muitos outros. É fundador da banda Mona (existente até hoje), foi membro das bandas Assim Assado, Ponto Chic e Joelho de Porco. Segue ativo tocando com Alex Moretti (baixista e vocalista) e Jordan Motta (guitarrista e backing vocal) na Banda Cosa Nostra Rock e segue dando palestras e workshops de bateria pelo país.

O Convite para Simbas para assumir os vocais acabou trazendo mais um parceiro para as composições do disco, pois sete das nove músicas são compostas com ele: "Manhê", "Homem do Fogo", "Você Está Sempre em Mim", "Saudades de Você", "Pode Ter Certeza" e "Sonho Louco".

Embora a banda tenha gravado apenas um álbum e seus membros tenham seguido caminhos diferentes, a balada "Saudade de Você" demonstrou certa força comercial, pois em 1987, foi regravada por Byra Nunes em seu LP lançado pela gravadora 3MJá a canção debochada "Manhê" que abre o disco, anos mais tarde foi repescada por Cláudio Celso para o repertório do único álbum do Comando Negri.

Nota Sobre a Remasterização

Este material é fruto de um rip de um LP original de 1986, tratado como um documento histórico de preservação. A restauração foi conduzida para corrigir o desequilíbrio tonal da masterização original, que sacrificava a dinâmica em favor dos padrões de rádio da época.

  • Captura de Precisão: Para a gravação do LP, utilizei uma agulha Ortofon Concorde Club (Elíptica), garantindo um registro fiel e detalhado dos sulcos originais.

  • Tratamento de Ruído: A remasterização contou com a redução de ruídos residuais e impurezas através do MVSep DeNoise (Standard), preservando a integridade dos transientes.

  • Engenharia de Presença (Ozone 11): Utilizei o Master Rebalance do iZotope Ozone 11 para uma reestruturação cirúrgica da mixagem:

    • O Resgate do Baixo: Apliquei um ganho crítico de 9 dB para devolver ao baixo de Pedro Infantozzi a massa sonora e a presença que estavam suprimidas na master de 1986.

    • Presença Vocal: A interpretação de Simbas recebeu um acréscimo de 1,9 dB, trazendo a crônica e o deboche das letras para o primeiro plano.

  • Acabamento Final: O processamento foi finalizado com ajustes de De-Esser e Bright Drums, garantindo o equilíbrio entre a sibilância e a definição da bateria de Albino Infantozzi.

Faixas: 
01. Manhê
02. Quero Ficar na Cidade
03. Homem Do Fogo
04. Você Está Sempre em Mim
05. 707
06. Explode Alegria
07. Saudades de Você
08. Pode Ter Certeza
09. Radio
10. Sonho Louco

Para baixar o álbum em FLAC, clique AQUI.

sábado, 7 de fevereiro de 2026

Clínica - Clínica (1987)

Clínica foi um duo de funk rock paulista, formado em 1987 pelos músicos multi-instrumentistas Fernando Salém e Marcelo "Tuba" Abrão. Após o single "Trauma" lançado em 1987 e incluído na trilha da novela Sassaricando em 1987, lançaram em 1988 um álbum sob a direção artística de Liminha e produção de Vitor Farias e Paulo Miklos.

Farias já vinha de uma bagagem de produção Titãs, Ira! e Fausto Fawcett & Os Robôs Efêmeros e após produzir o Clínica, produziu e lançou Ed Motta & Conexão Japeri, além de albuns de Jorge Ben Jor, Gilberto Gil, Nico Rezende e Banda Black Rio, comprovando que sua expertise em sonoridades soul e funk rock com aquela ginga brasileira!

Miklos já havia atuado com Tuba e Salém em projetos do início dos anos 80, e sua presença como produtor talvez seria o grande responsável por conectar duas almas geniais da música e fazer um disco tão necessário para o rock nacional! Miklos também não foi um produtor de gabinete; ele mergulhou na execução, assumindo o baixo e as guitarras na densa "Dor" e preenchendo o disco com vocais de apoio fundamentais em cinco das nove faixas.

O Eixo de Ferro: Aguilar, Sossega Leão e a Conexão de Elite

A força do Clínica reside na simbiose entre figuras centrais que cruzavam caminhos em projetos fundamentais:

  • Tuba e Miklos: A parceria começou em 1982 no projeto "Aguilar e Banda Performática" (produzido por Belchior), onde Marcelo Tuba era o arranjador e tecladista. Essa conexão foi reafirmada em 1986 nas sessões do Sossega Leão, onde Tuba assinou os arranjos de base e Miklos contribuiu nos backing vocals — um ensaio direto para o que viria no Clínica dois anos depois.

  • Salém e Miklos: Entre 1981 e 1983, Fernando Salém (então na banda Xoro Roxo) excursionou com Paulo Miklos, criando uma afinidade artística que floresceu sob a produção rigorosa de Miklos para o duo.

Descortinando a ficha técnica, nota-se que o Clínica foi marcado por um um desfile de talentos técnicos e artísticos:

  • Teclados de Primeiro Escalão: O lendário Jorjão Barreto (essencial na história do Black Rio) é o responsável pelas texturas de teclado em "U.T.I.", "Clínica", "Gula" e "Perturbação Mental".

  • Bateria e Percussão de Grife: A bateria real surge em momentos estratégicos com o saudoso Pedro Gil então membro da banda Egotrip – nas faixas "Dor" e "Observatório", enquanto o balanço rítmico ganha o tempero de André Jung (congas e pandeiro) em "Cadeia" e "Clínica".

  • O Sopro de Léo Gandelman: O saxofonista empresta sua elegância em "Dor", "Clínica" e "Observatório", elevando o patamar melódico do álbum.

  • Poesia de Vanguarda: A faixa "U.T.I." cristaliza a conexão intelectual do grupo, unindo a letra de Arnaldo Antunes e Paulo Leminski aos vocais de apoio do próprio Arnaldo.

No Clínica, Tuba provou ser um músico excepcional e versátil. Ele assumiu o papel de  arquiteto sonoro, assinando as guitarras, o baixo e a programação de bateria. Assina autoria em duas das canções do disco: "Cadeia" e "Dor" em parceria, respectivamente, com Fernando Salém e Paulo Miklos.

Salém, por sua vez, assina sozinho a autoria de seis das nove faixas do álbum: "Clínica", "Gula",  "Trauma" , "Observatório", "Perturbação Mental" e "Inconsciente Coletivo", sendo que nestas últimas quatro ele toca guitarra. Na composição de "U.T.I" de Antunes e Leminski, faz o assobio e megafones.

As veredas distintas de dois gênios

A trajetória de Tuba é marcada pela precisão: após o Clínica, ainda colaborou em 1989 nos álbuns de Skowa e a Máfia (na faixa "O Amigo do Amigo (Tráfico de Influências)" e Thaíde & DJ Hum (faixa "Coisas do Amor"), foi guitarrista colaborador na turnê Mais de Marisa Monte (1991). Atualmente, segue sua jornada musical como integrante do Grêmio Recreativo do Vai Com Quê.

Fernando Salém formou com Marisa Orth e André Abujamra a banda Vexame. Atuou como diretor artístico do programa Vitrine na TV Cultura, emissora onde poucos anos depois viria se tornar um dos compositores das trilhas dos infantis Castelo Rá-Tim-Bum e Cocoricó. Atuou também no SBT, na trilha sonora do TV CRUJ. Também teve projetos como compositor junto à Fundação Abrinq. Enfim, um caminho tão multifacetado quanto o de seu amigo Tuba

Influência do Clínica em Ô Blésq Blom

A efervescência do Clínica transbordou para os Titãs. Arnaldo Antunes, que colaborou na letra e nos vocais de "U.T.I.", absorveu a temática hospitalar e o rigor clínico do álbum — elementos que seriam o DNA de "O Pulso" no álbum Õ Blésq Blom (1989), também dirigido por Liminha. Ao mesmo tempo, o álbum dos Titãs absorve a experiência funk rock de Miklos, Antunes e Liminha, resultando num dos álbuns mais elegantes da década de 80.

Nota sobre a remasterização

Quero agradecer o meu amigo Charles Portilho da 019 Discos por este disco do Clínica, que engrandeceu este blog. Antes da remasterização, apenas duas músicas do Clínica estavam disponíveis em CD na coletânea Singles Vol. 2 (Warner, 2001) e Rock Brasil 25 Anos Vol. 3 (2008, Warner). Para a gravação do LP, usei agulha Ortofon Concorde Club (Elíptica), para dar um registro com mais precisão dos sulcos. A remasterização contou com redução de ruídos residuais pelo MVSep DeNoise. 

Faixas: 
01. Trauma
02. Cadeia
03. Dor
04. U.T.I.
05. Clínica
06. Gula
07. Observatório
08. Pertubação Mental
09. Inconsciente Coletivo

Para baixar este album em FLAC, clique AQUI.

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2026

Afrodite Se Quiser - Afrodite Se Quiser (1987)

O Afrodite Se Quiser foi muito além de um trio pop de sucesso nos anos 80; foi o projeto que estabeleceu os parâmetros de sofisticação visual e vocal para as formações femininas no Brasil. Formado por Emilinha Caldas, Karla Sabah e Patrícia Maranhão, o grupo unia a experiência de estúdio a uma curadoria estética rigorosa, personificada principalmente na figura de Emilinha.

Vinda de uma linhagem de glamour — filha da Miss Brasil 1955, Emilia Lima — Emilinha Caldas já era uma artista consolidada quando o grupo se formou. Com passagens pelos álbuns de Robertinho de Recife e um disco solo em 1986, ela trouxe para o trio não apenas a voz e o charme da beleza, mas sua arte de compositora e expertise como figurinista, bagagem que garantiu uma identidade de imagem e som única no mercado fonográfico dos anos 80. Prova de sua verve autoral é a assinatura em composições centrais do disco, como o hit "O Que Que Ela Tem Que Eu Não Tenho?" e "Peito e Bum-Bum".

A estética de figurino e a influência do R&B que esbanja elegância e sensualidade acabaram se tornando referência para os grupos Sublimes e Lilith em 1993. O Afrodite pavimentou o caminho para que, anos depois, o pop brasileiro aceitasse trios femininos que priorizavam a harmonia vocal aliada a uma imagem poderosa e bem construída.

O sucesso comercial foi impulsionado por clássicos como “O Que Que Ela Tem Que Eu Não Tenho?”, que garantiu presença na coletânea Sucesso Maior (1988, Som Livre) e Doze Super Sucessos (1988, Philips). A onipresença em programas de massa como o Xou da Xuxa era amparada por uma base sólida de confiança: embora Patrícia Maranhão fosse irmã da ex-paquita Tatiana Maranhão, a diretora Marlene Mattos e a própria Xuxa já conheciam o talento de Emilinha desde 1984, quando ela e Robertinho de Recife registraram presença no Clube da Criança com o clássico "É de Chocolate". No álbum de 1987, Patrícia também registrou sua faceta autoral em faixas como "Tudo Por Um Toque de Amor". Após este primeiro disco, ela foi substituída por Gisela Zingoni, resultando no LP Fora de Mim (1989).

O impacto do grupo reflete-se no luxo técnico de sua ficha técnica, que contou com a produção de William Forghieri, Roberto Lly e Renato Ladeira, além de músicos de elite como Robertinho do Recife e o saxofone de Léo Gandelman. A longevidade artística de suas integrantes, como Karla Sabah — que expandiu sua atuação para o cinema e literatura após o duo Bad Girls —, confirma que o Afrodite Se Quiser permanece como o registro histórico de um pop feito com apuro técnico, servindo de escola para a geração que o sucedeu.

Nota Técnica: O material aqui referenciado é fruto de uma preservação cuidadosa a partir de um LP original de 1987, ripado com agulha Ortofon Concorde Club. O áudio foi submetido a um processo de limpeza e remasterização, utilizando processamento MVSep DeNoise para remoção de ruídos de superfície e U-He Satin e Izotope Ozone 11 para restituição do brilho e fidelidade harmônica original.

Agradecimento especial a meu amigo Charles Portilho, da loja 019 Discos, por ser meu maior apoiadorr cultural, cedendo o LP do Afrodite Se Quiser para gravar.

Faixas: 
01. O que que Ela Tem que Eu Não Tenho
02. Pega Leve
03. Peito e Bum Bum
04. Tudo por Um Toque de Amor
05. Talk Tales
06. Medley Jovem Guarda

Para baixar o álbum em FLAC, clique AQUI.

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2026

Perdidos na Noite do Rock (1987)

Perdidos na Noite foi um programa apresentado por Fausto Silva, que estreou em 1984 na TV Gazeta, sendo transferido para a TV Record ainda no mesmo ano e, posteriormente, exibido pela TV Bandeirantes entre 1986 e 1988.

O sucesso da atração se devia ao jeito irreverente e politicamente incorreto do apresentador, que misturava sketches de humor, comentários ácidos e apresentações de bandas de rock. Um dos elementos marcantes era o cenário propositalmente precário, que reforçava o tom debochado e anárquico do programa.

Um disco que une diversas vertentes do rock!

O LP faz uma conexão de vários artistas consagrados, como Ira!, Hanói Hanói – com integrantes vindos da banda Brylho –, bandas do punk rock nacional Replicantes (do Porto Alegre, Rio Grande do Sul) e Inocentes (da capital de São Paulo), além de um Ney Matogrosso em sua vibe roqueira, assinando composição com Leoni – ex-Heróis da Resistência – em Dívidas de Amor. A trilha sonora também traz o pop rock de Biquini Cavadão e da banda Cheque Especial (banda liderada por Anibal Rosas, que no fim dos anos 1980 seguiria carreira solo).

Uma trilha sonora que lançou novas bandas

A trilha sonora "Perdidos na Noite do Rock" registra um espírito ousado: como grande diferencial, o LP do programa abriu as portas para a iniciante Lagoa 66, uma banda rock onanista – termo usado para banda com conteúdo de letra cômico verborrágico – com referências no rapcore californiano, criada em 1985 por Rogério Naccache (vocalista) e Tadeu Patolla (guitarrista), tendo além deles como membros Marcelo Munari (guitarra) Nicco Caccicacarro (baixo elétrico) Leonardo Giordano (bateria).

Diferente das demais faixas, gentilmente cedidas por grandes gravadoras, as músicas da Lagoa 66 – que nos anos 1990 alterou seu nome para Lagoa – foram produzidas e gravadas no Estúdio Zenith exclusivamente para este lançamento, com arranjos de Tadeu "Patolla" Eliezer. Além de guitarrista da Lagoa 66, o músico foi membro da banda TelexAnos mais tarde, Patolla viria a perpetuar sua história no rock nacional ao assinar a produção de "Tranpiração Contínua e Prolongada" da ainda estreante Charlie Brown Jr (senão o maior clássico do rock nacional), além de ter produzido também artistas como Biquini Cavadão, Strike, Wilson Sideral, Deborah Blando, Aliados 13, Jorge Ben Jor e vários outros.

Desafio do Restauro (2016-2026):

Para a remasterização que fiz em novembro de 2016, foi utilizada a agulha AT95E — modelo elíptico que oferece boa leitura do sulco com precisão nos agudos. Entretanto, saliento que ripar um material da Disco Ban com distribuição da Fonobrás é um pesadelo: algumas faixas parecem cópias do próprio vinil! Alguns estalos que ficaram sobressalentes precisaram ser removidos com audição minusciosa, trecho por trecho, pra não "comer" os beats da bateria caso aplicasse uma camada de removedor de declicker agressivo. O resultado está dentro do esperado, alguns estalinhos poderão ser encontrados. Para melhorar, em fevereiro de 2026, utilizei o MVSep DeNoise para "aspirar" o ruído residual do LP, mas mantendo ao máximo o áudio fiel à master do LP.

Faixas:
01. Pelamordedeus - Lagoa 66
02. Envelheço na Cidade - Ira!
03. Surfista Calhorda - Replicantes
04. Ele Disse Não - Inocentes
05. Dois Gumes - Uns e Outros
06. Totalmente Demais - Hanoi Hanoi
07. Nyet Chernobyl - Lagoa 66
08. Búzios Armação - Cheque Especial
09. Dívidas de Amor - Ney Matogrosso
10. Timidez - Biquini Cavadão

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quarta-feira, 4 de fevereiro de 2026

Faz Parte do Meu Show (1989)

Lançado em 1989, este LP é uma daquelas coletâneas que escondem verdadeiras raridades da segunda metade dos anos 80. O álbum leva o nome do mega-hit "Faz Parte do Meu Show", mas aqui na voz da banda Herva Doce.

A história por trás dessa faixa é curiosa: após a saída da RCA, o Herva Doce gravou pela Continental um Promo 12'' da música (composta por Renato Ladeira e Cazuza), que acabou não ganhando lançamento oficial na época. A gravação ficou engavetada até 1989, permitindo que Cazuza a lançasse primeiro em 1988, no álbum Ideologia, com a famosa roupagem de bossa nova. Ouvir a versão do Herva Doce é entender a gênese rock dessa canção.

Outra "mosca branca" presente no disco é o single "Solte Meu Nariz". Trata-se da gravação que a banda Magazine lançou originalmente como Promo Mix em 1987, trazendo Pedrinho nos vocais, já que Kid Vinil estava em contrato com a 3M naquela ocasião. O projeto ainda entrega semi-hits potentes como "Rock Shock da Mamãe" (Degradée), "Sozinho na Cidade" (Rock Memory) e "Cara Pálida" (Gang 90). É só pedrada, um disco delicioso!

Nota de Remasterização: Um agradecimento especial ao Charles Portilho, da loja 019 Discos (Nova Odessa/SP), pelo empréstimo deste exemplar raro. A digitalização, iniciada em agosto de 2024 com a agulha Ortofon Concorde Mix, garantiu a máxima precisão sonora. Agora, em fevereiro de 2026, o material recebeu o tratamento final com o MVSep DeNoise, removendo ruídos residuais e elevando a fidelidade ao nível que esses registros históricos merecem. O que já era bom, ficou ainda melhor!

Faixas:
01. Faz Parte do Meu Show - Herva Doce
02. Ano Bissexto - Bandabsurda
03. Cara Pálida - Gang 90
04. Rock Shock da Mamãe - Degradée part. esp. Roger Moreira
05. Roquenrol - Impacto
06. Nosso Lado Animal - Bandaliera
07. Sozinho na Cidade - Rock Memory
08. Grândola, Vila Morena - 365
09. Solte Meu Nariz - Magazine
10. Como Eu Queria - Anjo Caído

Para baixar esta coletânea em FLAC, clique AQUI.

Rock In Brazil Vol. 1 (1985)

O ano de 1985 foi marcado pelo fervor do primeiro Rock In Rio e pelo surgimento de diversas coletâneas que tentavam surfar essa onda. Com um marketing estratégico afiado, a RCA lançou "Rock In Brazil Vol. 1", um autêntico disco "pau-de-sebo". A proposta era econômica e direta: reunir no mesmo LP artistas já conhecidos do grande público com apostas estreantes, permitindo que a gravadora sentisse o potencial de cada um sem correr grandes riscos financeiros.

No lado das bandas consagradas, tínhamos nomes como Lobão & Os Ronaldos, Brylho, Absyntho, Herva Doce e João Penca & Seus Miquinhos Amestrados. Já no time das apostas que buscavam seu espaço, figuravam Synopse, Cinema À Dois, Tânia Cristal & Os Diamantes, Xok, Tubarão, Truke e Sylvia Patricia.

Embora o título sugerisse uma série, o "Volume 1" acabou sendo único. O destino dos artistas foi diverso: enquanto alguns ficaram restritos a esta coletânea, outros seguiram caminho na RCA por mais alguns álbuns antes de trocarem de casa. Casos notáveis são o do grupo Tubarão, de João Penca e de Sylvia Patrícia — que mais tarde migraria para a MPB. E a banda Cinema A Dois que se desfez após o sucesso meteórico de "Não Me Iluda" revelou seu vocalista Fábio Fonseca, que seguiu carreira solo.

Um destaque histórico obrigatório é "Totalmente Demais", gravada por um Brylho já sem Cláudio Zoli, mas que trazia a semente do que viria a ser o Hanói Hanói, com a voz e a pegada de Arnaldo Brandão.

Embora algumas bandas tenham tido apenas passagem de ida por esta coletânea, é impressionante lembrar o sucesso de "Não Me Iluda" (Cinema A Dois) e "Encontro Marcado" (Xok) nas rádios na época e em tempos de resgate tem retornado com força nas rádios Adulto Contemporâneas. Bandas promissoras que infelizmente – ou felizmente – se tornaram one hit wonders. Além do mais, este LP é uma verdadeira lenda do Rock Brasileiro, um registro de um momento em que tudo parecia possível nas rádios e nas lojas de disco.

Nota sobre a remasterização: ela foi realiza\da em novembro de 2024, com uso de agulha Ortofon Concorde Mix, garantindo a máxima fidelidade de áudio do LP. Agora em fevereiro de 2026, a remasterização ganha um acabamento final de redução de ruído residual, mas mantendo o máximo da fidelidade da gravação original. Aumente o som e curta essa viagem!

Faixas: 
01. Amante Profissional - Herva Doce
02. Como Macaco Gosta de Banana - João Penca & Seus Miquinhos Amestrados
03. Não Me Iluda - Cinema À Dois
04. Fazendo Romance - Absyntho
05. Lady Pank - Sylvia Patrícia
06. História de Amor - Tubarão
07. Corações Psicodélicos - Lobão & Os Ronaldos
08. Totalmente Demais - Brylho
09. Vamp Atômica - Tânia Cristal e Os Diamantes
10. Encontro Marcado - Xok
11. Franco Atirador - Truke
12. Para Para - Synopse

Para baixar este álbum em FLAC, clique AQUI.