domingo, 5 de julho de 2026

Adriano Jorge - Loucos Desejos (1987)

Lançado em 1987, Loucos Desejos é o único álbum de estúdio do cantor e compositor Adriano Jorge e uma das produções fonográficas mais interessantes já realizadas em Roraima. Embora tenha sido concebido de forma independente e alcançado circulação limitada, o disco revela um projeto artístico ambicioso, reunindo profissionais de destaque da música brasileira em uma produção que pouco devia aos lançamentos das grandes gravadoras da época.

Gravado e mixado em 24 canais nos estúdios Transamérica, no Rio de Janeiro, o álbum foi produzido pelo próprio Adriano Jorge e contou com a direção de produção de Lulu Faráh, Liber Gadelha e Jota Moraes. A fabricação e a distribuição ficaram a cargo da Gravações Elétricas S.A., empresa responsável pela prensagem de inúmeros discos independentes e de pequenas gravadoras brasileiras durante os anos 1980, evidenciando que o projeto percorreu todas as etapas da cadeia fonográfica profissional, da gravação à distribuição.

Musicalmente, Loucos Desejos transita entre o pop rock, a MPB e a sonoridade característica do rock brasileiro da década de 1980. As oito faixas apresentam letras que alternam reflexões existenciais, críticas sociais e canções românticas, enquanto os arranjos se dividem entre dois núcleos distintos de músicos. Em quatro faixas, os arranjos são assinados por Jota Moraes, acompanhado por Jaime Alem (guitarra), Pascoal Meirelles (bateria), Jamil Joanes (baixo) e Mingo (percussão). Nas demais, os arranjos ficam a cargo de Liber Gadelha e Lulu Faráh, com Liber Gadelha na guitarra, Wilson Meirelles na bateria e Ricardo Feijão no baixo.

A presença desses músicos confere ao álbum um valor especial. Jaime Alem consolidaria sua carreira como diretor musical e parceiro de Maria Bethânia; Jota Moraes tornou-se um dos principais arranjadores da música brasileira; Pascoal Meirelles é referência na bateria e na música instrumental; e Jamil Joanes integrou a banda de Raul Seixas, além de participar de inúmeros trabalhos da MPB. A reunião desse elenco demonstra o cuidado empregado por Adriano Jorge na construção de seu primeiro e único LP.

Com distribuição restrita e poucas informações disponíveis fora do próprio encarte, Loucos Desejos permaneceu praticamente desconhecido durante décadas. Hoje, além de raro entre colecionadores, o álbum representa um importante documento da produção musical roraimense dos anos 1980, registrando um momento em que um artista do extremo norte do país conseguiu reunir alguns dos mais respeitados profissionais da música brasileira em torno de um projeto autoral. Mais do que uma curiosidade regional, trata-se de um registro que evidencia a diversidade e a riqueza da produção independente brasileira daquele período.

Faixas:
01. Magia Negra
02. Loucos Desejos
03. Colonizado
04. Caminhos de Você
05. Insista, Persista
06. Show Não Para
07. Atropelo
08. Metamorfose Louca

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Markinhos Moura - Sabor de Mim (1989)

Lançado em 1989 pela Polydor, com fabricação e distribuição da Fonobras sob licença da PolyGram do Brasil, Sabor de Mim marcou o terceiro álbum de Markinhos Moura para a gravadora. O repertório mantém a linha romântica que consolidou o cantor ao longo da década, reunindo composições inéditas, versões em português de sucessos internacionais e uma releitura de Taiguara, em uma produção que sintetiza bem a estética do pop brasileiro do final dos anos 1980.

A direção artística ficou a cargo de Mariozinho Rocha, enquanto Paulo Debétio respondeu pela direção de produção. A identidade musical do álbum foi conduzida por Julio Cesar Teixeira, responsável pelos arranjos, regências, teclados e programação, reunindo ao seu redor uma equipe de músicos bastante experiente. Participam das gravações Torcuato Mariano (guitarra), Paul Lieberman (saxofone), Paulinho Trumpete (flugelhorn), além dos vocais de apoio de Pedrão, Gastão Lamounier, Márcio Lott, Marisa Fossa e Jurema de Cândio. A gravação foi realizada por Jairo Gualberto e Marcio Gama, com mixagem assinada pelo próprio Jairo Gualberto.

Um dos aspectos mais interessantes do álbum está na forte presença da dupla Paulo Debétio e Paulinho Rezende. Autores de sucessos gravados por artistas como Fafá de Belém, Simone, Kátia e também de "Anjo Azul", presente no primeiro álbum de Markinhos Moura pela PolyGram, eles assinam quatro das onze faixas de Sabor de Mim: "Sabor de Mim" (em parceria com Julinho Teixeira), "Olhar de Caramelo", "Enquanto Viva Uma Paixão" e "Beijo Infiel". Paulinho Rezende também responde pela adaptação em português de "Fantasia", versão da canção italiana Cantero Per Te.

O repertório ainda evidencia a diversidade de seus compositores. Joanna divide com Markinhos Moura a autoria de "Não Dá Pra Ser Feliz"; Gilson e Joran assinam "Vendedor de Ilusões"; Gastão Lamounier e Pedrão aparecem em "Quem Dera"; enquanto Julinho Teixeira retorna ao lado de Renato Ladeira e Roberto Lly em "Cigano". O disco também inclui a versão brasileira de "It Might Be You", tema do filme Tootsie, adaptada por Ricardo Leão e André Ervilha como "Só Com Você", além da releitura de "Teu Sonho Não Acabou", de Taiguara.

A apresentação visual acompanhou o cuidado da produção musical. As fotografias foram realizadas por Marcelo Faustine, com coordenação gráfica de Arthur Fróes e projeto de capa desenvolvido por Reinaldo e Ayssa Bastos.

Apesar de Markinhos Moura ter lançado três álbuns pela Polydor, sua discografia permaneceu praticamente ausente das reedições em CD promovidas pela PolyGram. Nenhuma coletânea das séries Personalidade ou Minha História foi dedicada ao cantor e, dentro do catálogo da gravadora, apenas "Anjo Azul" chegou ao formato digital pelas coletâneas Minha História Popular e Millennium Popular. Nesse contexto, esta remasterização representa a primeira disponibilização integral de Sabor de Mim em meio digital, preservando um álbum que permaneceu inédito fora do vinil por mais de três décadas.

Faixas:
01. Sabor de Mim
02. Fantasia (Cantero Per Te)
03. Olhar de Caramelo
04. Vendedor de Ilusões
05. Quem Dera 
06. Cigano
07. Não Dá Pra Ser Feliz
08. Só Com Você (It Might Be You) (Theme From Tootsie)
09. Enquanto Viva Uma Paixão
10. Teu Sonho Não Acabou
11. Beijo Infiel

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quinta-feira, 2 de julho de 2026

João Penca e Seus Miquinhos Amestrados - Sucesso do Inconsciente (1989)

Lançado em 1989 pela gravadora independente Esfinge, Sucesso do Inconsciente é o quarto álbum de estúdio do João Penca e Seus Miquinhos Amestrados. Misturando rock and roll clássico, surf music, new wave, humor e paródias, o disco sintetiza a identidade que a banda vinha construindo ao longo de uma década, transformando referências musicais das décadas de 1950 e 1960 em uma linguagem própria para uma geração que cresceu ouvindo rock nacional nos anos 1980.

A banda surgiu em meados de 1983 com a promessa da PolyGram de transformá-la em um grande sucesso, mas havia uma condição: Ney Matogrosso precisava gravar "Calúnias (Telma Eu Não Sou Gay)", versão da banda Light Reflections adaptada pelos integrantes do João Penca. O fato é que "...Pois É", álbum de Ney Matogrosso, foi impulsionado pelo sucesso da faixa. Na época, o grupo era formado por Avellar Love (baixo), Bob Gallo (tenor) e Selvagem Big Abreu (barítono), além de Léo Jaime, Del Rosa, Cláudio Killer e Leandro Verdeal. A promessa culminou no lançamento de Os Sucessos de João Penca e Seus Miquinhos Amestrados, que, no entanto, praticamente não recebeu divulgação.

Após se firmar como trio com Avellar, Gallo e Abreu, o João Penca assinou contrato com a RCA, preservando harmonias inspiradas nos grupos vocais norte-americanos e reforçando essa identidade por meio das apresentações ao vivo. O espetáculo incluía microfones de pedestal, coreografias cuidadosamente ensaiadas, figurinos elegantes e uma presença de palco que remetia aos primeiros anos do rock and roll.

Vista sob a perspectiva atual, essa proposta lembra o conceito que décadas depois seria associado às chamadas boy bands: um grupo em que imagem, performance e vozes formavam uma unidade. A diferença é que o João Penca buscava inspiração diretamente na estética do rock clássico. A influência de Elvis Presley, dos conjuntos vocais do doo-wop, da surf music e da Jovem Guarda nunca foi abandonada; ao contrário, tornou-se a base sobre a qual a banda construiu uma linguagem própria.

Essa identidade também dialoga com a trajetória de Léo Jaime, idealizador do projeto ao lado dos integrantes em seus primeiros anos e colaborador frequente do grupo. Sua participação em "SOS Miquinhos" simboliza a permanência desse vínculo criativo e ajuda a compreender a coerência estética que acompanhou o João Penca desde seus primeiros discos.

Nos álbuns lançados pela RCA, essas referências conviviam com sintetizadores, guitarras mais processadas e a sonoridade típica da new wave que dominava o rock brasileiro da época. Em Sucesso do Inconsciente, entretanto, essa equação parece se inverter. Sem abandonar completamente os elementos contemporâneos, o trio aproxima seu repertório de um rock mais orgânico, em que o peso das harmonias vocais, das guitarras e das influências sessentistas ganha maior destaque. O resultado é um álbum que, mais do que acompanhar as tendências de 1989, apresenta ao ouvinte as raízes musicais que sempre estiveram no centro da identidade do João Penca e Seus Miquinhos Amestrados.

Em Sucesso do Inconsciente, essa fórmula aparece amadurecida. Produzido por Júnior Mendes, é o penúltimo álbum de estúdio da banda e preserva todas as características que fizeram do João Penca um dos fenômenos mais singulares do rock nacional: irreverência, criatividade e um profundo carinho pela história do rock and roll.

O álbum reúne composições inéditas, releituras bem-humoradas e paródias que dialogam diretamente com a história do rock, mantendo o estilo descontraído que consagrou o grupo. Entre os destaques está "Matinê no Rian", faixa que contou com a participação especial de Paula Toller e ganhou grande projeção ao ser escolhida como tema de abertura da novela O Sexo dos Anjos, da TV Globo.

A canção presta homenagem ao antigo Cinema Rian, tradicional sala de exibição localizada em Copacabana, no Rio de Janeiro. Inaugurado em 1932 por iniciativa de Nair de Tefé, esposa do presidente Hermes da Fonseca, o cinema tornou-se um dos símbolos culturais da cidade antes de ser demolido em 1983. A lembrança desse espaço reforça o caráter nostálgico presente em boa parte da obra do João Penca.

Outro momento marcante do disco é "SOS Miquinhos (Merdley)", como a própria banda definiu, em tom de brincadeira, um "merdley": uma sequência de músicas costuradas em formato de medley, reunindo trechos de clássicos da música brasileira e internacional, entre eles "Namoradinha de um Amigo Meu", "Rua Augusta", "Vem Quente que Eu Estou Fervendo" e "Yellow River", da banda britânica Christie.

A trajetória da canção, no entanto, ilustra as tensões que cercavam o humor irreverente do João Penca. Embora reunisse citações a clássicos da Jovem Guarda e do rock em tom de paródia, a faixa enfrentou resistência na televisão. Segundo Selvagem Big Abreu, a banda sofreu diversos boicotes, apesar da intensa execução nas rádios, situação revertida apenas quando Hebe Camargo abriu espaço para o grupo em seu programa. O episódio revela que o humor satírico da banda nem sempre era bem recebido por parte da indústria do entretenimento da época.

Nas rádios circulou uma versão promocional de "SOS Miquinhos", gravada especialmente para divulgação, com as participações de Lulu Santos, Léo Jaime, Erasmo Carlos, Evandro Mesquita e dos vocalistas do Afrodite Se Quiser. Embora essa tenha sido a versão executada maciçamente pelas emissoras, não foi a que entrou para o LP Sucesso do Inconsciente, ocasionando certa frustração entre os fãs, já que os motivos para essa regravação nunca foram esclarecidos publicamente.

Outra canção que enfrentou resistência foi "Cozinho de Noite", composição de Arnaldo Batista com adaptação de Léo Jaime. A música começa com os versos "Cozinho de noite / Pra quando você chegar / Cozinho gostoso / Pra quando você voltar do trabalho...", mas a interpretação explora deliberadamente uma entonação ambígua da palavra "cozinho", criando um duplo sentido que torna fácil compreender por que a faixa jamais encontrou espaço na programação normal das rádios FM e da televisão.

Mas não foi apenas esse repertório mais ousado que marcou o álbum. Lançado em meio às dificuldades enfrentadas pela Esfinge, Sucesso do Inconsciente chegou ao mercado justamente quando a gravadora atravessava sua fase mais delicada. O encerramento das atividades do selo no ano seguinte comprometeu a continuidade de sua divulgação e contribuiu para que parte de seu catálogo permanecesse, por muitos anos, restrita ao lançamento original.

Diferentemente de outros títulos da discografia do João Penca, Sucesso do Inconsciente acabou acumulando um desgaste editorial que dificultou sua circulação nas décadas seguintes. Na coletânea Festa dos Micos, lançada pela Eldorado em 1993 nos formatos LP, K7 e CD, apenas "Matinê no Rian" e "SOS Miquinhos" foram incluídas. Já em 2000, quando a BMG lançou Hot 20, somente "Matinê no Rian" voltou a aparecer. A versão promocional de "SOS Miquinhos" permaneceu esquecida, tornando-se uma verdadeira raridade. Em outras palavras: quem possui o promo da Esfinge — uma autêntica mosca branca — guarda uma verdadeira pepita de ouro.

O álbum ainda reserva versões engraçadas — e com compostura! (risos) — inspiradas em clássicos do rock internacional. "Johnny Pirou" faz uma divertida releitura de "Johnny B. Goode", de Chuck Berry, enquanto "O Monstro Macho" brinca com "Monster Mash", sucesso de Boris Pickett and the Crypt-Kickers. Não são simples versões, mas adaptações bem-humoradas ao universo brasileiro, incorporando trocadilhos, novas situações e o humor característico do grupo. Também merecem destaque as inéditas "Menino Justiceiro" e "O Par", marcantes pela qualidade de suas melodias e letras.

Revisitar hoje este LP é também revisitar uma parte da história do rock brasileiro que acabou ficando à margem das grandes retrospectivas. Embora boa parte do público retorne com frequência aos discos da fase RCA e PolyGram, Sucesso do Inconsciente oferece uma oportunidade diferente: conhecer a banda por meio de um trabalho menos lembrado, mas que sintetiza com clareza muitas das referências musicais e estéticas que definiram sua identidade.

Como complemento à remasterização apresentada pela Gazeta do Som, a versão promocional original de "SOS Miquinhos" foi reconstruída a partir de uma gravação preservada no YouTube, utilizando trechos da versão oficialmente lançada em LP para recompor os segmentos ausentes e preservar a faixa em uma forma o mais próxima possível daquela distribuída originalmente às emissoras de rádio.

Faixas:
01. Menino Justiceiro
02. Larga Meu Pé
03. Vinheta 1
04. A Surra
05. O Par
06. Matinê no Rian
07. O Velho Tubarão
08. Vinheta 2
09. Johny Pirou (Johny B. Good)
10. Cozinho de Noite
11. O Monstro Macho (The Monster Mach)
12. S.O.S Miquinhos (Merdley)
13. S.O.S Miquinhos (Sem Censura)

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quarta-feira, 1 de julho de 2026

Faz de Conta - Ricardo Vilas Vai ao Sítio (1983)

Em dezembro de 1983, a EMI-Odeon levava às lojas Faz de Conta — Ricardo Vilas Vai ao Sítio, álbum que marcou a terceira trilha sonora do Sítio do Picapau Amarelo. Em uma época em que a música produzida para a televisão recebia tratamento especial, cada história exibida ao longo daquele ano ganhava um ou mais temas exclusivos. Algumas dessas canções permaneceriam na trilha do programa até sua última temporada, em 1986.

A concepção do projeto partiu de Ricardo Vilas, integrante do quarteto vocal Momento Quatro e da dupla Teca & Ricardo. Responsável pelas composições, arranjos e regência, Vilas desenvolveu o repertório em estreita colaboração com a equipe do programa, reunindo parcerias com o diretor Geraldo Casé, os roteiristas Wilson Rocha e Sylvan Paezzo, além de Mônica Rabelo, Marion Villas Boas e Jorge Ferreira.

Embora também tenha sido lançado em fita cassete, o grande diferencial da edição em LP é o livreto de seis páginas que a acompanha. Nele está a história Faz de Conta, escrita por Geraldo Casé e ilustrada em preto e branco por Elvira Helena, em desenhos especialmente criados para serem coloridos. A artista também assina a arte da capa e da contracapa, ampliando a experiência do ouvinte e aproximando-o do universo visual criado por Monteiro Lobato.

O álbum reúne convidados do elenco da EMI dando voz aos personagens do Sítio sob a direção musical de Ricardo Vilas. Participam Beto Guedes, Dalto, Joyce, Nana Caymmi, Gonzaguinha, Roberto Ribeiro e Teca Calazans, além de Gabriela Ferreira e da menina Rita, filha de Ricardo Vilas e Teca Calazans.

A produção musical ficou a cargo de Renato Corrêa – integrante dos Golden Boys –, com produção executiva de Mônica Rabelo e gravação de Guilherme Reis e Franklin Garrido. O cuidado dedicado ao estúdio, aliado à riqueza dos arranjos e das interpretações, transformou canções originalmente criadas para a televisão em uma obra singular, preservando em disco um recorte musical do universo criado por Monteiro Lobato.

Por se tratar de uma obra complementar ao universo do Sítio do Picapau Amarelo, é natural que reunisse textos e ilustrações produzidos por profissionais ligados à adaptação televisiva. Essa estreita associação com a marca e com os elementos visuais da série certamente tornava qualquer eventual reedição mais complexa do que a simples reutilização dos fonogramas.

Com o passar dos anos, Faz de Conta se tornou um dos momentos raramente lembrados da discografia ligada ao Sítio do Picapau Amarelo. Não deixa de ser curioso que participações de artistas como Beto Guedes, Dalto, Joyce, Nana Caymmi, Gonzaguinha e Roberto Ribeiro permaneçam praticamente desconhecidas até mesmo entre admiradores de suas carreiras, apesar de integrarem um projeto diretamente ligado a um dos maiores fenômenos da televisão infantil brasileira. 

Quando Faz de Conta chegou às lojas, o universo musical do Sítio ainda era fortemente associado aos discos lançados pela Som Livre e ao especial Pirlimpimpim, produzido pela TV Globo no ano do centenário de Monteiro Lobato. O novo álbum, editado por uma gravadora fora do grupo Globo e concebido como um complemento à série, acabou ocupando um espaço mais discreto dentro dessa história, o que talvez explique por que permaneceu durante tantos anos conhecido apenas por colecionadores e pesquisadores da obra.

A presente remasterização foi realizada a partir de um exemplar preservado em coleção particular, adquirido em 2018. Embora o LP ainda possa ser encontrado ocasionalmente em sebos e feiras de discos, trata-se de um título que permaneceu durante muitos anos fora do radar da maior parte dos colecionadores. Esta edição procura devolver Faz de Conta ao meio digital com o cuidado e a fidelidade sonora que sua preservação exige.

Faixas:
01. Cuca Biruta - Ricardo Vilas
02. Mãe Natureza - Beto Guedes
03. Furiosa - Dalto
04. As Sobrinhas - Joyce & Nana Caymmi
05. O Burro Falante - Ricardo Vilas
06. Gato Gato - Rita & Ricardo Vilas
07. Faz De Conta - Ricardo Vilas
08. Voa Foguete - Gonzaguinha
09. Canção Do Marinheiro - Roberto Ribeiro
10. Crusóe - Ricardo Vilas
11. Meu Califa - Teca Calazans
12. O Grão Vizir - Gabriela Ferreira

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Rock Memory - Sozinho na Cidade (1987)

Fundada em 1981 por Fábio Cirello, a Rock Memory tornou-se presença constante no circuito paulistano ao longo da década de 1980, período de grande efervescência cultural e diversidade musical no Brasil. Com uma proposta que transitava entre o revival de clássicos do rock e a produção autoral, o grupo conquistou uma base fiel de admiradores e manteve viva a estética do rock clássico em um cenário musical em transformação.

Ao longo de sua trajetória, a banda se apresentou em casas emblemáticas da capital paulista, como Woodstock, Café PiuPiu, Café Pedaço e Calabar. A formação original reunia Fábio Cirello (teclados e vocais), John Kurk (guitarra base e vocais), Ricardo Brasa (bateria), Eduardo Leão (baixo e vocais) e Alex Fornari (guitarra solo e vocais), estrutura que sustentou a fase mais produtiva do grupo.

Esse período resultou em uma discografia composta por três LPs temáticos — Anos 60, Anos 70 e Anos 80 — além do álbum autoral Sozinho na Cidade, todos lançados pela gravadora Continental. Em 1991, esse conjunto de trabalhos foi reunido na coletânea comemorativa 10 Anos de Rock Memory, que consolidou a primeira década de atuação da banda.

Entre os trabalhos autorais, Sozinho na Cidade destacou-se como um dos registros mais importantes da trajetória do grupo. A faixa-título, assinada por John Kurk e Eduardo Leão, tornou-se o principal destaque do disco. Também chamam atenção “Lig Lig”, versão em português de Liebe Ist Gesund, de Gunther Sigl, adaptada por Fábio Cirello, e “Apocalipser”, composta por Cirello e Cleo Toledo — todas posteriormente incluídas na coletânea comemorativa.

O álbum foi gravado no Estúdio Transamérica, com produção de Paulo Ferreira em parceria com a própria banda. A direção artística ficou a cargo de Wilson Souto Jr., enquanto os arranjos foram assinados coletivamente pelo grupo.

Ao longo dos anos, a formação passou por mudanças significativas. Eduardo Leão permaneceu na banda por oito anos, desde a fundação, contribuindo diretamente em quatro das seis composições autorais do grupo. Sua saída ocorreu após a criação da Rockover, sendo substituído por Renato Muniz.

Em 1991, John Kurk também deixou a formação para integrar a Paris Supertramp, projeto dedicado ao repertório da banda inglesa Supertramp. Posteriormente, Kurk se reuniria novamente com Eduardo Leão na Rockover, permanecendo em atividade por mais de uma década em projetos derivados, incluindo a Rockstock e, mais tarde, o Mr. Kurk, até seu falecimento em 2017, aos 69 anos.

A Rock Memory segue em atividade até hoje, com mais de quatro décadas de estrada, mantendo em seu repertório tanto o rock clássico quanto suas composições autorais, preservando uma trajetória singular no circuito musical paulistano.

Faixas: 
01. Constituir (Uma Revolução)
02. Lig Lig (Liebe Ist Gesund)
03. Senado Romano
04. Sozinho na Cidade
05. Aspire
06. Apocalipser

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terça-feira, 30 de junho de 2026

Renato Aragão - O Forró dos Trapalhões (1981)

Lançado em LP e K7 pela Ariola em 1981, O Forró dos Trapalhões chegou às lojas em um momento em que o quarteto vivia o auge da popularidade na televisão. Embora o repertório conte com as participações de Dedé Santana e Zacarias, o álbum foi oficialmente lançado em nome de Renato Aragão. Mussum, por sua vez, não integra as gravações, período em que também desenvolvia sua carreira fonográfica em lançamentos de samba pela RCA.

Inspirado nas tradicionais festas juninas, o disco confirma que Os Trapalhões já exploravam o mercado fonográfico por meio de álbuns temáticos. O repertório reúne forrós, baiões e canções bem-humoradas que dialogavam diretamente com o sucesso do grupo na televisão e com o universo das festas populares brasileiras.

Com direção artística de Marco Mazzola e produção de Luiz Cláudio Varella, o álbum combina forró, baião e outras sonoridades nordestinas ao humor característico dos Trapalhões. Entre os destaques está a participação especial de Sivuca na faixa "Seca e Chuva", reforçando a proposta musical do projeto.

Entre as nove faixas está "O Casamento da Filha do Faceta", única música do álbum disponibilizada oficialmente nas plataformas digitais, ao integrar a coletânea Festa no Arraial, lançada pela Universal Music em 2016, sob curadoria do jornalista Rodrigo Faour. Vale lembrar que a canção já havia sido apresentada ao público no álbum Os Trapalhões na TV, lançado pela Som Livre em 1979, que reunia áudios memoráveis do humorístico. É dessa gravação que muitos se recordam de Zacarias, vestido de filha caipira, dizendo: "Papai, eu quero me casar", seguido pela resposta de Renato Aragão, caracterizado como Faceta: "Pois, minha fia, ocê diga, com quem?", Para O Forró dos Trapalhões, a canção ganhou sua primeira versão musical completa, em ritmo de forró pé de serra, adaptada ao conceito do álbum.

Permanecendo inédito no meio digital por mais de quatro décadas, O Forró dos Trapalhões passa agora a ser disponibilizado pela primeira vez na íntegra na internet, em versão remasterizada a partir do LP original, preservando um capítulo pouco conhecido da discografia dos Trapalhões e da música popular brasileira.

Faixas:
01. A Velha Debaixo da Cama
02. Belorizonten - part. esp. Zacarias
03. As Pessoas e a Espingarda (A Mulher e a Espingarda) - part. esp. Dedé Santana
04. Rio de São Sebastião - part. esp. Dedé Santana e Zacarias
05. Seca e Chuva - part. esp. Sivuca
06. Terral
07. Cajuína
08. O Casamento da Filha do Faceta - part. esp. Zacarias
09. O Pau de Arara - part. esp. Dedé Santana e Zacarias

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Kiko e Kika - O Sapo Cantador (1987)

 

Lançado pela gravadora Copacabana em 1987, Kiko e Kika surgiu em um dos períodos mais férteis do mercado fonográfico infantil brasileiro. A segunda metade dos anos 1980 foi marcada pela expansão de coletâneas temáticas, personagens licenciados e artistas voltados ao público infantil, muitos deles derivados de programas de televisão ou concebidos especialmente para esse segmento, que vivia um momento de grande efervescência comercial.

Para dar personalidade aos sapos, as músicas utilizavam o efeito vocoder, responsável pelo timbre característico que remetia ao coaxar dos personagens. Embora o disco apresentasse dois protagonistas, Kiko e Kika não eram interpretados por uma dupla de cantores: todas as vozes foram gravadas por Jorge Gambier, que recorria ao processamento eletrônico para criar a convincente ilusão de dois personagens distintos. Vale diferenciar o vocoder — recurso amplamente empregado na disco music dos anos 1970 — do auto-tune moderno, utilizado principalmente para correção de afinação e como efeito vocal.

Produtor atuante na indústria fonográfica brasileira desde a década de 1970, Jorge Gambier foi o idealizador de Kiko e Kika e já havia assinado outros trabalhos de sucesso na Copacabana, como Disco Baby — que deu origem ao grupo As Melindrosas, formado pelas irmãs de Gretchen — e Os Três Patinhos (1980), outro projeto que explorava vozes processadas eletronicamente.

Antes de ganhar um álbum próprio, porém, Kiko e Kika estrearam no compacto "O Sapo Cantador", posteriormente incluído na coletânea No Mundo da Criança. Nos primeiros encartes, os personagens apresentavam um visual bastante diferente daquele que se tornaria mais conhecido: ilustrações inspiradas em esculturas de papel machê, desenvolvidas pela Casinha de Animação, conferiam aos sapos uma identidade visual singular para a época.

O álbum reúne 12 faixas que misturam canções tradicionais de domínio público, cantigas de roda e versões curiosas de sucessos populares, como "A Perereca da Vizinha", de Dicró, o clássico sertanejo "Fuscão Preto" e temas festivos como "Parabéns a Você". Como atrativo adicional, a parte frontal do encarte podia ser colorida pelas crianças.

A produção foi desenvolvida pela Som Indústria e Comércio S.A. (Copacabana Discos), a partir de uma concepção de Jorge Gambier, sob direção artística de Juvenal de Oliveira. As gravações ficaram a cargo dos técnicos Paulo Jurazo, Getúlio B. C. Júnior e Zécafi, enquanto a mixagem foi realizada por Paulo Jurazo e Getúlio B. C. Júnior. O corte do LP foi executado por Getúlio B. C. Júnior e a montagem ficou sob responsabilidade de Leandro E. Grandi, equipe que contribuiu para transformar a proposta de Gambier em um disco que soube combinar recursos eletrônicos, repertório infantil e uma identidade sonora bastante peculiar.

Para divulgar o lançamento, a Copacabana confeccionou fantasias dos personagens e escalou dois atores para interpretá-los em apresentações na televisão. Kiko e Kika participaram de programas infantis comandados por Xuxa, Mara Maravilha, Sérgio Mallandro e Angélica, além de atrações voltadas ao público adulto, como os programas de Chacrinha e Bolinha, ampliando a visibilidade do projeto em um período de forte concorrência no mercado infantil.

Faixas:
01. A Perereca Da Vizinha
02. O Computador (Computer)
03. Sapinho Encantado
04. Sapo Louco (Poco Loco)
05. Parabéns À Você
06. O Bom Menino
07. O Sapo Cantador (Do The Frogleg)
08. O Sapo
09. Pi Piruli (Ti Tiroli) (Qua Qua Qua)
10. Noite Feliz (Stille Nacht, Hellige Nacht) / Boas Festas
11. Gatinha Parda / Passarás, Passarás / Sapo Cururu
12. Fuscão Preto

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