Formado por Andrea Di Antoni, Franco Amato e William Naraine, o Double You foi introduzido ao selo DWA, comandado pelo produtor Roberto Zanetti (Robyx), tornando-se um dos projetos mais emblemáticos da eurodance dos anos 1990. Ao longo dessa parceria, o grupo lançou os álbuns We All Need Love (1992), The Blue Album (1994) e Forever (1996), este último concluído no Brasil com o apoio da Spottlight Records, responsável pela distribuição local do catálogo da DWA.
Muito além do sucesso comercial, o Double You desempenhou um papel importante na evolução da própria linguagem da eurodance. Ao combinar bases inspiradas no house music com estruturas melódicas próximas ao arena pop, refrões de forte apelo comercial e a interpretação característica de William Naraine, o grupo ajudou a estabelecer uma fórmula que marcaria toda uma geração de produções europeias.
Em 1998, após o lançamento do single "Somebody", o Double You iniciou uma mudança significativa de direção artística. Contratado pela gravadora Movimento, o grupo lançou o álbum Heaven, afastando-se da sonoridade eurodance que havia definido sua trajetória até então. Apesar da distribuição internacional da BMG, o projeto encontrou dificuldades para competir em um mercado cada vez mais dominado por novos fenômenos do pop internacional, incluindo artistas e grupos como Ace of Base, *NSYNC, Christina Aguilera e Five.
Os anos seguintes revelariam os desafios enfrentados por artistas associados à geração eurodance diante das rápidas transformações da indústria fonográfica. Em selos menores, como a Baby Records, William Naraine e seus colaboradores continuaram produzindo material inédito. Embora essas gravações possuíssem inegável valor afetivo e discográfico para os admiradores mais dedicados do Double You, elas não conseguiram reproduzir o impacto comercial alcançado pelo grupo na década anterior.
As gravações lançadas entre 2000 e 2001 representam bem esse momento de transição. O êxito relativo obtido nesse período esteve associado a uma estratégia de crossover que revisitava clássicos do repertório do Double You em novos arranjos executados com banda, utilizando as faixas inéditas como complemento de um espetáculo que dialogava simultaneamente com a nostalgia e com a tentativa de renovação artística.
Em 2003, a releitura de "Everything I Do (I Do It For You)" marcou o último trabalho conhecido de Franco Amato ao lado de William Naraine. Produzida em meio ao crescimento da trance music, a gravação procurava reposicionar o artista nas pistas de dança, mas acabou encontrando um cenário particularmente desafiador. Ironicamente, um dos principais arquitetos do som que havia ajudado a redefinir a eurodance buscava inspiração justamente nas novas gerações de produtores que ocupavam o espaço anteriormente conquistado por projetos como o Double You.
Ao longo dessa fase, o projeto passou gradualmente a operar sob a sigla DY. Ainda que a nomenclatura variasse entre lançamentos e colaborações, William Naraine permanecia como o elemento de identificação mais imediato para o público. Bastavam os primeiros versos para que a conexão com a história do Double You se restabelecesse.
As colaborações com DJ Ross consolidaram essa nova etapa, ao mesmo tempo em que William Naraine se aproximava de outros núcleos criativos. Entre eles, destacou-se a parceria com Gino Martini. Inicialmente ligado ao Double You como músico de apoio, Martini expandiu progressivamente sua atuação para os campos da produção e da composição.
O single "The Volume", por exemplo, foi assinado por Martini, Cássio Inoura e William Naraine, enquanto "What Can I Do" evidenciava outra configuração criativa, reunindo Naraine, Marco Baratta e Roberto Sudano em sua autoria. Tratava-se de um período marcado por intensa sinergia artística, no qual diferentes colaboradores contribuíam para manter o projeto em constante movimento.
Essa efervescência criativa encontrou expressão particularmente significativa no projeto House Boulevard, desenvolvido por Gino Martini, Cássio Inoura e DJ Tom Hopkins, com William Naraine atuando como produtor executivo. Mais do que uma iniciativa paralela, o projeto funcionou como um espaço de experimentação artística no qual diferentes colaboradores ligados ao universo do Double You desenvolveram novas composições, como "You Are Everything", "Lose Control" e "If I Could Fall".
Aliás, "If I Could Fall", originalmente concebida no contexto criativo do House Boulevard, acabaria assumindo uma trajetória particularmente reveladora. Apresentada ao mercado internacional em 2010 sob o nome de William Naraine, frequentemente acompanhada da menção ao remixador e produtor Vincenzo Callea, a canção seria posteriormente incorporada ao álbum Life (2011), lançado oficialmente como um trabalho do Double You.
Tal dualidade já não causava estranhamento, funcionando como evidência de que a voz de Naraine e o projeto Double You já se apresentavam ao público quase como uma única entidade artística. Para os ouvintes, William continuava sendo a principal referência afetiva do grupo, independentemente da assinatura utilizada nos créditos. A própria circulação internacional dos remixes reforçava essa percepção, alternando entre o artista individual e a identidade coletiva que ele passou, gradualmente, a representar.
Entre idas e vindas da marca Double You, antigos vínculos criativos também voltaram a ganhar protagonismo. Marco Canepa, presente desde os tempos de The Blue Album, retomou sua parceria com William Naraine assumindo funções cada vez mais relevantes na composição do repertório recente. A canção 'Definitely Sure', presente no álbum Life, composta por Naraine e Canepa, apresentava um apelo pop rock próximo ao trabalho de artistas como Jason Mraz e Colbie Caillat. Incluída na trilha sonora da temporada de 2011 de Malhação, a faixa proporcionou ao Double You uma renovada exposição radiofônica no Brasil.
Da mesma forma, nomes como Ilaria Godani e Dario Carli aparecem nos créditos tanto das das gravações de 1999 a 2001 quanto da atualidade, demonstrando que parte da identidade artística construída ao redor do Double You jamais foi completamente abandonada.
Os anos mais recentes também reservaram reencontros e novas conexões criativas. Em 2020, William Naraine voltou a colaborar com Roberto Zanetti (Robyx), produtor responsável pela introdução do Double You ao selo DWA, na releitura de "Dancing With An Angel" para o projeto Ritmo Sinfonico. Pouco depois, uma nova geração passou a integrar o universo do grupo com a participação de Bruno Martini — filho de Gino Martini e parceiro frequente de Alok — no remix de "Please Don't Go" e na coautoria de "Runaway Child". A esse cenário soma-se ainda a presença de Rick Bonadio em "Nobody Is Like You", marcando a aproximação do produtor e empresário brasileiro com a música eletrônica em uma colaboração inédita ao lado de William Naraine.
Reunidas nesta coletânea, as gravações lançadas entre 1999 e 2025 documentam não uma história de desaparecimento, mas de adaptação. A presença, lado a lado, das faixas produzidas no início dos anos 2000 e dos trabalhos mais recentes permite perceber uma energia criativa que nunca deixou de existir por completo. Mudaram os produtores, os selos, os formatos e até mesmo as assinaturas utilizadas nos discos. No entanto, a voz de William Naraine permaneceu como o fio condutor de uma trajetória que continuou a se reinventar sem perder totalmente de vista as suas origens.
The Beat Goes On não é apenas uma referência a uma das canções deste período. É a definição mais precisa para a história que estas gravações contam. Porque, apesar de todas as transformações, a batida continuou.
E dificilmente poderia haver desfecho mais apropriado do que "Curtain Calls". Escrita por William Naraine ao lado de Marco Canepa, Ilaria Godani, Vinicius Alves Martins, Elias Inácio, Gino Martini Neto e Gisele Martini, a canção surge como uma celebração dirigida aos fãs que acompanharam as diferentes fases do Double You. Interpretada por Naraine, a voz que permaneceu como fio condutor desta trajetória, "Curtain Calls" transforma o encerramento em agradecimento — um último retorno ao palco antes que as luzes se apaguem, reafirmando que algumas histórias não terminam; apenas seguem em frente ao som da próxima batida.
01. Everything I Do (I Do It For You)
02. Dance Anymore (Tausz Remix)
03. Get Up - with DJ Ross
04. Beat Goes On - with DJ Ross
05. The Volume
06. To The Beat - with DJ Ross
07. Lose Control
08. You Are Everything
09. Change - with DJ Ross
10. What Can I Do
11. Music (Is The Answer)
12. If I Could Fall (Vincenzo Callea Radio Mix)
13. Definitely Sure
14. You're Always On The Run - feat. Rodrigo Teaser
15. Runaway Child
16. Nobody Is Like You - with Rick Bonadio
17. Please Don't Go (Bruno Martini Remix)
18. Fall in Love (I Am A Robot)
19. Dancing With An Angel - feat. Sandy Chambers (Ritmo Sinfonico)
20. What Am I Supposed To Do
21. Curtain Calls









