O álbum Amigo é Prá Essas Coisas, lançado por Ruy Faria (1937–2018) em 1984 sob o selo WEA, é um exercício de elegância e curadoria dentro da MPB. Diferente de um disco solo convencional, a obra funciona como um painel onde Ruy, o arquiteto das harmonias do MPB4, convida elementos fundamentais de sua trajetória para pontuar momentos específicos de sua narrativa musical.
O Poder da Harmonia e a Curadoria de Época
Um ponto central desta análise é a releitura de "Nossa". Enquanto Gilberto Gil construiu uma harmonia quase acústica no álbum "Um Banda Um" (1982), a versão de Ruy Faria carrega um conceito muito mais harmônico e preenchido. É a prova de que uma mesma composição pode ganhar dimensões completamente distintas através de arranjos vocais e instrumentais precisos.
O faro de Ruy para o que é relevante também se manifesta em "Nós Dois", de Milton Nascimento e Luiz Avellar. Ruy registrou a canção logo após o grupo AdCanto (1982), antecipando-se ao próprio Milton, que só viria a gravar uma versão definitiva em sua voz anos depois, no álbum "A Barca dos Amantes" (1986).
Versões Definitivas e Clássicos Revisitados
A faixa que dá título ao disco, "Amigo É Pra Essas Coisas", de autoria de Silvio Silva e Aldir Blanc, apresenta-se aqui como uma versão definitiva, contando com a participação de Chico Buarque e do grupo MPB-4. É um reencontro histórico, já que o MPB-4 havia gravado esta obra anteriormente no álbum "Deixa Estar" (1979). Aliás, "Não Fala de Maria", faixa que abre o disco, é composição de Chico Buarque que ele mesmo gravou para seu album "Nº 4" (1970).
O editorial destaca ainda "Pois É Pra Que", de Sidney Miller, uma canção que "tem cheiro de clássico" e possui uma árvore genealógica de interpretações riquíssimas. Vale a pena visitar as versões do próprio Sidney Miller (1968, álbum "Brasil: do Guarani ao Guaraná"), de Cynara (1969, álbum "Pronta pra Consumo") e do MPB-4 (1971, álbum "De Palavra... em Palavra..."), que inclusive fica a minha dica serem revisitados atentamente escutados!
Aliás, Ruy Faria gravou neste album "Luz Azul", uma versão de Ribbon in the Sky, uma canção inédita que Stevie Wonder registrou na coletânea "Stevie Wonder's Original Musiquarium I" (1982).
Kleiton Ramil traz sua sonoridade característica especificamente para a faixa "Caco Velho", composição de Ary Barroso. O Quarteto em Cy e o MPB4 aparecem como blocos de apoio em faixas como "Amar de Novo" e a instrumental "Cachoeira de Cambucí", consolidando a sonoridade vocal que definiu uma era.
O Rigor da Produção WEA
Sob a direção artística de Liminha e produção executiva do próprio Ruy Faria, o disco equilibra o orgânico e o eletrônico. A ficha técnica destaca a programação de sintetizadores por Marcio Queiroz e Magro, um detalhe que situa o álbum perfeitamente na estética sonora de meados dos anos 80, sem perder a sofisticação dos arranjos e regências de Luiz Antônio.
Estética e Identidade Visual e relançamento em CD
A capa e contracapa, assinadas por Carlos Horcades, é um documento visual dessa rede de afetos. As fotografias de Carlos Horcades, Ivayr Borges e Daniel Augusto Jr. emolduram Ruy em um ambiente de celebração, onde as imagens dos amigos (Chico, Kleiton e os grupos vocais) não são apenas ilustrações, mas extensões da própria proposta sonora do álbum. Entretanto, a edição em CD lançada pela Velas traz um material gráfico novo, supervisionado por Tadeu Valério, com capa de Palado e Rodrigo Martins, atualizando a imagem de Ruy Faria para o ano de 1994.

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