É sério, você precisa ouvir esse disco!
Lançado em 1985 pela Elektra/WEA, O Som da Cor traz A Cor do Som com Dadi, Mú Carvalho, Ary Dias, Gustavo Schroeter e Perinho Santana. Este último já havia participado das gravações de Intuição, de 1984, e aqui aparece definitivamente integrado ao grupo, assumindo as guitarras e também dividindo os vocais.
E é justamente quando a gente começa a fuçar os créditos que o disco fica ainda mais interessante: não existe um único vocalista à frente do repertório. Ary Dias canta “Arrastando Corrente”, “Vida Que Passamos” e “Acho Que Ela Gosta”; Mú assume “Ela Vai Ter Que Me Escutar” e “Eu Quero É Bem Mais”; Dadi fica à frente da faixa-título e de “Tudo Que Você Quiser”; e Perinho canta “Navegante” e “Bomba No Vestibular”. Virou bagunça? Não! Funciona — e muito bem! A formação trabalha quase como um revezamento, inclusive nos instrumentos: Dadi, além do baixo, aparece nas guitarras e teclados; Ary troca a percussão pela bateria em algumas faixas; e Mú também participa das programações eletrônicas.
E tem visita em casa! Cecília Spyer, hoje ligada ao universo da bossa nova e do new jazz, é praticamente uma presença recorrente no álbum. Seus vocais de preenchimento feminino dão às faixas um tom deliciosamente new wave, com uma precisão vocal maravilhosa — não estão ali simplesmente fazendo “corinho”, mas acrescentando textura e identidade aos arranjos.
Armandinho Macedo, nome fundamental na história d’A Cor do Som, reaparece nos vocais de “Vida Que Passamos” e “Eu Quero É Bem Mais”. Já Léo Gandelman deixa sua marca em “Acho Que Ela Gosta”, com teclados e um solo de saxofone, enquanto Toni Costa participa com guitarra solo; os dois também cuidam da programação da DMX nessa faixa. E há ainda um crédito daqueles que você só encontra quando resolve ler até as letrinhas do LP: Márcio Figueiredo, responsável pela ghost laugh de “Arrastando Corrente”. Pois é!
O repertório também mantém os integrantes bastante envolvidos na composição. Mú Carvalho é o nome mais frequente entre os autores, inclusive nas parcerias com Paulinho Tapajós em “Que Flor É Você?” e “Eu Quero É Bem Mais”. Dadi e Ronaldo Bastos assinam “Som da Cor”, enquanto Perinho compõe “Navegante” e divide “Bomba No Vestibular” com Chacal.
Produzido por Chico Neves, O Som da Cor também carrega algumas marcas bem reconhecíveis da produção dos anos 1980. Ao instrumental da banda somam-se sequencer e programação de bateria DMX, sem eliminar a bateria acústica de Gustavo Schroeter ou a forte presença da percussão de Ary Dias. É justamente essa convivência entre instrumentos e programação que chama atenção nos créditos do álbum.
Chico Neves também divide a engenharia de gravação com Vitor Farias, responsável pela mixagem. A direção artística ficou com Liminha, enquanto Frederico Mendes assinou fotografia e arte da capa. O corte do LP foi realizado por José Oswaldo Martins.
E se você estiver procurando este álbum em CD, aí a coisa complica. Em 2008, a Warner lançou A Cor do Som – Super 3, dentro de uma série de coletâneas triplas dedicada a vários artistas. São 42 faixas distribuídas em três CDs, com seleção de repertório de Carlos Savalla e masterização creditada à Digital Mastering Solutions.
De O Som da Cor, porém, entraram somente “Ela Vai Ter Que Me Escutar”, “Arrastando Corrente” e “Tudo Que Você Quiser”. E vou dizer: horrível! Para quem esperava encontrar ali uma boa recuperação digital dessas gravações, passou longe. Além de representar apenas três músicas desse álbum, essas faixas aparecem no box a partir de fontes muito fracas de LP, com características de áudio comprimido em MP3.
Nesta remasterização de 2026, com a tecnologia trabalhando a nosso favor, você perceberá muito melhor a presença dos detalhes — vocais, percussões, guitarras, teclados e aquelas pequenas intervenções espalhadas pelos arranjos — a partir de um LP que, pelo que pude verificar, foi prensado pela RCA.
Aparentemente, essa prensagem traz um áudio mais fechado, com certo abafamento. Na etapa de masterização, utilizei o U-he Satin para abrir os agudos e devolver maior presença ao conjunto. Com o MVSep DeNoise na limpeza dos ruídos residuais, o resultado chega àquela sensação deliciosa de uma fita master nova e limpa.
Bom, sou suspeito para elogiar A Cor do Som. É um time de músicos exímios fazendo um som pirado, com guitarra baiana, grooveria, funk, reggae, muito suingue e aquela mistura tão característica do som nordestino com o boogie americano. E os vocais de Dadi, Ary, Perinho e Mu são gostosos demais de ouvir!
Não vou ficar tentando explicar demais, não. Só ouve!
01. Arrastando Corrente
02. Som da Cor
03. Ela Vai Ter Que Me Escutar
04. Vida Que Passamos
05. Que Flor É Você?
06. Acho Que Ela Gosta
07. Eu Quero É Bem Mais
08. Navegnte
09. Todo Que Você Quiser
10. Bomba no Vestibular
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