Se você tem o costume de garimpar discos em vinil — incluindo compactos simples, duplos e promocionais de 12 polegadas para rádio — com enfoque em material do rock brasileiro dos anos 1980, certamente já esbarrou com o misterioso nome Vestidos de Espaço. Por trás desse título trivial, esconde-se uma das brincadeiras mais espirituosas e provocativas da história do nosso pop-rock.
A ideia nasceu em 1988, durante as pausas das gravações dos Titãs no estúdio Nas Nuvens, no Rio de Janeiro. Entre uma sessão e outra, os músicos dedicavam-se a composições bem-humoradas, distantes da proposta habitual da banda. A brincadeira acabou ganhando corpo e transformou-se em um projeto real para o Carnaval de 1989.
O objetivo era criar uma banda fictícia sob total anonimato, testando a reação dos programadores de rádio e do público para provocar a indústria fonográfica da época. A provocação tinha um alvo claro: a facilidade com que canções deliberadamente banais podiam conquistar espaço na programação. Para isso, reuniu-se um time de peso: integrantes dos Titãs, Paula Toller (Kid Abelha), Jorge Mautner, o produtor Liminha e o engenheiro de som Vitor Farias.
Para manter o disfarce, o grupo registrou as composições sob o pseudônimo Pepino Carnale. Lançado pela WEA Discos como um Single de 12 Polegadas — com direção artística de Liminha, produção de Antoine Midani e arte não creditada de Fernando Zarif —, o disco trazia duas faixas curtas, irônicas e diretas ao ponto:
Lado A – "Pipi Popô" (1'24"): Assinada na verdade por Arnaldo Antunes e Branco Mello, a canção contava com a voz marcante de Paula Toller satirizando as composições de duplo sentido e os refrões apelativos da música comercial.
Lado B – "A Marcha do Demo" (3'01"): Uma parceria de Arnaldo Antunes, Branco Mello, Marcelo Fromer e Paulo Miklos, funcionando como uma marchinha-rock debochada e ácida.
O disco, portanto, não é apenas um registro de duas marchinhas pouco convencionais. É o vestígio material de uma experiência em que músicos consagrados assumiram identidades inventadas para brincar com os mecanismos de divulgação da música popular. Por mais absurdo que pareça, a canção chegou a ser tocada pelo DJ sonoplasta My Boy no Xou da Xuxa. O registro em vídeo da apresentadora dublando a faixa enquanto uma criança a olha de lado virou um dos memes mais conhecidos da internet.
Para a publicação da remasterização deste single, recorri ao ChatGPT para transformar a infame capa da "tromba" saindo da genitália feminina da garota de pernas abertas por uma mocinha comportada vestida com uma rendinha preta. Ficou bem melhor!
E para a gravação e remasterização deste single, eu agradeço ao Paulo Afonso Franco de Cordeirópolis/SP que cedeu o promocional de rádio.
Faixas:
01. Pipi Popô
02. A Marcha do Demo
Para baixar este Single em FLAC, clique AQUI.

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