Lançado pela Som Livre em 2002, Hot 90 2 continua a saga dedicada a rebobinar os sucessos internacionais dos anos 1990. O disco tem seleção de repertório de André Werneck e masterização de Sergio Seabra. O projeto gráfico é assinado por Marciso (Pena) Carvalho.
Com 16 faixas, o CD aposta numa seleção que passeia pelo pop jovem, pelas baladas de R&B, pelo reggae, pela música eletrônica e pelo chamado arena pop. É uma mistura que ajuda a relembrar diferentes momentos daquela década, com alguns hits que continuaram circulando muito além de seu lançamento original.
O destaque mais curioso fica por conta de “El Arbi”, do cantor franco-argelino Khaled. Lançada em 1992, a música ganhou projeção nacional a partir de 1999, quando passou a embalar as aparições da Feiticeira, personagem de Joana Prado, no programa O+, comandado por Otaviano Costa na TV Bandeirantes. A escolha foi feita pelo DJ Theo Werneck, que resgatou o single de Khaled para acompanhar as performances da personagem. O resultado foi daqueles que fazem uma música antiga ganhar vida nova: “El Arbi” permaneceu por cinco semanas consecutivas entre as mais tocadas, e a Som Livre chegou a investir numa versão de Sheila AMR, com participação de Izlene, incluída na coletânea Summertronic. A gravação original também entrou em Arabian Nights – Mil e Uma Noites, coletânea lançada pela Som Livre para aproveitar a febre da personagem, e ganhou espaço na novela Vila Madalena, como tema de Marinalva, personagem de Rosi Campos. Uma trajetória e tanto para uma gravação lançada sete anos antes de virar febre por aqui!
Outras músicas merecem destaque pelas versões remix que ajudaram a impulsionar sua circulação nas pistas. É o caso de “Missing”, do Everything But The Girl, especialmente na versão de Todd Terry, que marcou a cena dance de 1995 e 1996 com seu famoso spanish beat. “Space Cowboy”, do Jamiroquai, aparece no Classic Radio Remix assinado por David Morales, enquanto “(You Drive Me) Crazy”, de Britney Spears, vem na versão The Stop! Remix. São exemplos de como uma nova abordagem pode mudar o destino de uma música acabando por funcionar comercialmente melhor que uma versão original.
Outro momento que vale resgatar da cultura pop é “Freedom ’90”, de George Michael. Decidido a se afastar dos holofotes e a não aparecer no videoclipe, o cantor encontrou uma solução que entraria para a história da música pop: inspirado por um ensaio fotográfico da Vogue, recrutou algumas das maiores supermodelos da época para protagonizar o vídeo e dublar sua voz. Dirigido por David Fincher, o clipe em preto e branco reuniu Naomi Campbell, Cindy Crawford, Linda Evangelista, Christy Turlington e Tatjana Patitz. A produção ganhou dimensão própria, tornando-se um símbolo de libertação pessoal e artística e uma crítica à imagem que a indústria fonográfica construía em torno de seus artistas.
Eric Clapton também surpreendeu com “Change the World”, composição de Gordon Kennedy, Tommy Sims e Wayne Kirkpatrick. A gravação aproximou o blues e a guitarra de Clapton de uma produção com elementos de R&B assinada por Kenneth "Babyface" Edmonds, numa combinação que conquistou o público e serviu de tema para o filme Fenômeno, estrelado por John Travolta. No Brasil, a música permaneceu várias semanas entre as dez mais tocadas da Jovem Pan, consolidando sua presença nas rádios.
Os Backstreet Boys também têm uma história interessante de divulgação com “Quit Playing Games (With My Heart)”. Depois de conquistarem espaço internacional com “Backstreet’s Back”, em 1997, o grupo emplacou vários singles por aqui. A gravadora Virgin, por sua vez, encontrou uma maneira de continuar explorando o catálogo anterior do quinteto no mercado brasileiro: lançou em 1998 o álbum de estreia dos Backstreet Boys como se fosse o segundo disco da carreira do grupo. A estratégia ajudou a manter a máquina funcionando, e “Quit Playing Games (With My Heart)” tornou-se um grande sucesso no Brasil naquele ano.
Até aqui, temos uma coletânea que cumpre a proposta de revisitar músicas de diferentes momentos dos anos 1990. O problema aparece quando chegamos às duas últimas faixas do CD. Aí, a história muda de figura — e a chamada “encheção de linguiça” ganha um sentido bem menos inocente.
“Pause”, creditada a The Bombers, é um desses casos que deixam mais perguntas do que respostas. A investigação da faixa levou a uma mistura de samples de “AC/DC”, do projeto X-Press 2, com “It’s Time to Burn”, do projeto Storm, conforme uma identificação encontrada nos comentários do YouTube. Além da identificação questionável do fonograma, a coletânea atribui a composição a Natascha Hagen, cantora de eurodance, um crédito que não se sustenta diante das referências encontradas para a gravação. A faixa apareceu na trilha complementar de Um Anjo Caiu do Céu, precisamente no CD da boate LZ 129, e na coletânea Moonight 2001. Ou seja, estamos falando de uma gravação que circulava em 2001, não de uma produção dos anos 1990. Depois de reaparecer em Hot 90 2, ainda voltou a circular como tema de Malhação, em 2004. VAI VENDO!
A situação se complica ainda mais com “Feelin’ It”, creditada a Full Intention. A identificação feita no YouTube apontou para “XX Series”, do projeto Beat Boxx, composição do DJ Marcelo Cabral. O crédito usado em Hot 90 2 é particularmente problemático porque Full Intention não é um nome qualquer: trata-se também de uma conhecida dupla da cena house britânica, formada pelos produtores Michael Gray e Jon Pearn. A identificação da faixa permitiu desfazer a confusão entre o crédito impresso na coletânea e a gravação em questão. E há outro detalhe: “XX Series” também aparece na trilha da boate LZ 129, lançada em 2001. Mais uma faixa que não corresponde à década que dá nome à compilação!
No fim, Hot 90 2 tem um repertório capaz de despertar boas lembranças, mas as duas últimas faixas deixam um registro bem menos agradável. Não é apenas uma questão de incluir músicas de anos diferentes: quando títulos e créditos artísticos não correspondem às gravações identificadas, a própria documentação do disco fica comprometida. Para quem coleciona e pesquisa esses lançamentos, são justamente esses detalhes que fazem a diferença entre uma simples coletânea de sucessos e um documento que também merece ser investigado.
01. Un-Break My Heart - Toni Braxton
02. Can't Help Falling in Love - UB40
03. Sadeness - Enigma
04. Close to You - Maxi Priest
05. Change the World - Eric Clapton
06. Freedom '90 - George Michael
07. How Bizarre - OMC
08. El Arbi - Khaled
09. Missing (Todd Terry Remix) - Everthing But The Girl
10. I'm Too Sexy - Right Said Fred
11. Space Cowboy (Classic Radio Remix) - Jamiroquai
12. The Rockafeller Skank - Fatboy Slim
13. (You Drive Me) Crazy (The Stop! Remix) - Britney Spears
14. Quit Playing Games (With My Heart) - Backstreet Boys
15. Pause - The Bombers
16. Feelin' It - Full Intention
