Lançada em CD pela Som Livre em 2002, a coletânea Pop reúne 16 faixas que retratam diferentes vertentes da música internacional do início do milênio, incluindo gravações que se destacaram nas paradas de sucesso. O título também permite uma brincadeira com o sentido da palavra em inglês: pop, como estouro, aquilo que explode e chama a atenção. Mas será que o repertório corresponde a essa ideia? Vamos decupar o CD e descobrir o que fez parte dessa seleção.
O projeto e a seleção do repertório ficaram a cargo de André Werneck, enquanto a coordenação gráfica foi assinada por Marciso (Pena) Carvalho e o projeto gráfico, por Mário Bag. Em sintonia com a ideia de estouro sugerida pelo título, a capa aposta numa estética pop art à la Andy Warhol, com cores vibrantes, raios e um objeto cilíndrico em perspectiva que parece prestes a provocar uma explosão. Se a intenção era representar uma lata de refrigerante fazendo pop, uma pilha ou até algum artefato explosivo de desenho animado, fica a dúvida — mas o impacto visual está garantido!
Entre os estouros do pop internacional que trazem uma herança noventista renovada estão 'NSync, com a faixa-título “Pop”, e Backstreet Boys, representantes do fenômeno das boy bands que marcaram a virada do milênio. O repertório também contempla duas ex-integrantes das Spice Girls que alcançaram projeção com trabalhos individuais: Geri Halliwell, com “It's Raining Men”, releitura do clássico imortalizado pelas Weather Girls, e Emma Bunton, com o soft rock “What Took You So Long?”.
A versão de Geri Halliwell integrou a trilha sonora de O Diário de Bridget Jones, blockbuster do cinema em 2001. A canção tem aquele perfil de faixa que caberia perfeitamente em coletâneas da linha Cine Hits, mas, na voz da eterna Ginger Spice, soa datada. Falta-lhe a potência vocal das Weather Girls, cuja interpretação original também marcou a publicidade brasileira ao embalar uma campanha dos cigarros Hollywood na década de 1980.
Ao consultar a parada anual Hot 100 Brasil, no site Mais Tocadas, constatei que “Pop” e “More Than That” fecharam 2001, respectivamente, nas posições 87 e 81. Procurei registros de Geri Halliwell e Emma Bunton nessa mesma parada, mas não encontrei. Isso não determina, por si só, a longevidade de uma música: uma posição no ranking retrata seu desempenho em determinado período, mas não sentencia seu potencial de atravessar gerações. Se “It's Raining Men”, na versão de Geri, me soa datada, o mesmo não se aplica a 'NSync, Backstreet Boys e Emma Bunton, artistas que continuam queridíssimos no Brasil.
Bom, vamos relembrar que o pop também marca presença com “I'm Outta Love”, de Anastacia, que foi revelada no ano de 2001, chegando a integrar a trilha sonora de Um Anjo Caiu do Céu, reforçando o sucesso da cantora no Brasil. Aliás, me recordo bem quando Anastacia estreou com essa música, em uma passarela cantando com flashes de luz, óculos escuros, linda e loira portando tipo 55 Unidyne, transportando o soul dos anos 70 pro início do milênio. Como diz Cíntia Chagas: "chique, chiquíssima".
E se tivemos a saída de cena das Spice Girls no início do milênio, o mesmo foi marcado pela chegada de outra girl band européia que fez um sucesso estrondoso naquele ano: No Angels. O grupo alemão formado no programa Popstars em 2000 estreou no rádio e tv com a solar "Daylight in Your Eyes". Pra se ter idéia, ela ficou na posição nº 12 do ranking das mais tocadas na Parada Hot 100 Brasil em 2001.
“Lady Marmalade”, creditada na Moulin Rouge, não se trata da reunião de Christina Aguilera, P!nk, Mýa e Lil' Kim do tema do filme Moulin Rouge de 2001, mas uma réplica muito bem feita pela Som Livre para integrar essa coletânea. A canção foi sucesso absoluto mundial e fechou o ano de 2001 ocupando a 4ª posição do Hot 100 Brasil. A gravação cover, de tão boa que é, acabou reaproveitada pela Som Livre nos anos seguintes nas coletâneas Nuth (2002), Replay (2002) e Cine Hits (2003).
Quem apareceu na coletânea dentro do pop foi Double You com sua versão pop de "Dance Anymore", que foi tema da novela As Filhas da Mãe. Mas ser tema de uma novela não fez a música ser hit de parada. É aquela típica música que todo fã essencial de Double You deve saber (olha eu recorrendo me apropriando do termo do Dudu Purcena). A canção foi um extra do álbum "Studio Live" do grupo, que já estava sinalizando um flerte com a música pop – mesmo que por um curto período, hahahaha – e registrou essa balada pop que mereceu estar na coletânea e fez uma ponte muito bacana com o r&b do Nelly na seleção.
Aliás, muito ventilou nas mídias musicais da época sobre o sucesso do álbum Country Grammar que Nelly lançou em 2000. O rapper emergiu nas paradas com "Ride Wit Me", que alcançou a 3ª posição na Billboard Hot 100 dos Estados Unidos e também entrou no Top 10 de vários países, incluindo o Reino Unido, Austrália e Irlanda.
Preciso do rap do Afroman! Lançada originalmente em 2000 e indicada ao Grammy, o single "Because I Got High" tocou bastante em rádios brasileiras em 2001, virando um hino cômico sobre procrastinação e os efeitos de "ficar chapado". Anos mais tarde, ela se tornaria um tema do Homem-Berinjela no Pânico na TV! – humorístico da Rede TV! – carregando um fonético a produção do programa usava a música por causa do "sorriso maroto" da língua portuguesa (o famoso mondegreen). O refrão em inglês "because I got high" soava muito parecido com "tentando agarrar" em português. O Homem-Berinjela andava por praias, parques e festas usando apenas uma sunga apertada com uma berinjela gigante dentro, justamente "tentando agarrar" e assustar as pessoas que passavam. Toda vez que ele aparecia correndo atrás de alguém, o refrão de Afroman começava a tocar.
Voltemos a falar de versão somlivrescas? Bora citar “Another Day in Paradise”, creditada a Paradise. Trata-se de uma réplica muito boa da releitura que Brandy & Ray J gravaram para o projeto Urban Renewal (2001), álbum dedicado a releituras em R&B de canções de Phil Collins – com encomenda e aval do próprio cantor. É uma pena não se ter registros das vozes que estão por trás dessa réplica. O fato é que a Som Livre também aproveitou a gravação na coletânea Replay (2002).
A vertente dançante ganha espaço com um reload remix assinado por Peter Black em 2001 para “Electric Avenue”, de Eddy Grant, aqui batizado de “Ringbang Mix”. Originalmente lançada em 1982, a canção trazia um reggae eletrônico que agitava as pistas de dança.
O clima eletrônico continua com Gigi D’Agostino, em “La Passion”, numa versão dance pop que caiu muito bem nesta coletânea, e com a alemã Diana Fox, representante do chamado trance NRG, em “Running on Empty”, faixa que também marcou presença em muitas coletâneas de dance music da época.
Próximo do fim da resenha, trago uma investigação de repertório, que revela ainda uma outra correspondência de cover. “Dreams of Me”, creditada a Dreams, é uma réplica de “Dream to Me”, versão dance lançada por Dario G em 2001 a partir do clássico “Dreams”, da banda irlandesa The Cranberries. Nesse caso, a gravação presente em Pop remete a uma releitura já existente, em vez de partir diretamente da versão original da banda. Se você der uma passadinha no YouTube e ver os comentários dos brasileiros na versão do Dario G, tem muitos comentários carinhosos dos simpatizantes pela música eletrônica, recordando com muita memória afetiva a canção.
Mas o caso de “The Land”, creditada a Ibiza, me chocou. A identificação dessa gravação começou nos comentários de um vídeo de Pop publicado no YouTube, quando um ouvinte perguntou se alguém sabia o nome da música no Spotify, pois não estava conseguindo encontrá-la. Na resposta, alguém indicou a faixa “Free Wire (Klubdoctorz Remix)”, do projeto Cosmic Gate. Foi assim que cheguei à correspondência entre os dois fonogramas e pude constatar a semelhança entre as gravações.
Não vamos entrar em discussões jurídico-musicais sobre plágio, um terreno cinzento que exigiria outra abordagem. Prefiro apreciar o resultado: a faixa encerra o disco e, convenhamos, parabéns a quem fez a réplica — mesmo sem ter a autoria devidamente identificada, ficou muito bem-feita!
Ao documentar a coletânea no Discogs, notei duas coisas curiosas. No encarte interno, consta o ano de 2002 como copyright fonográfico: (P) 2002. Já na própria mídia, está impresso (P) 2001. Fui procurar outras pistas no YouTube e encontrei uma propaganda do disco cuja veiculação também está documentada em 2001. E aí fica a curiosidade: o CD já estava sendo produzido para um lançamento em 2002, chegou às lojas antecipadamente ou houve um erro na confecção do material? Não dá para cravar uma resposta, mas qualquer uma dessas possibilidades torna a história interessante. E tá tudo bem! Mas que é curioso, é!

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