Lançada em 2002 pelo selo Globo Universal, Duetos – Química Perfeita reúne 14 gravações que têm nos encontros entre artistas seu principal atrativo. Mas há uma particularidade interessante nessa seleção: boa parte das músicas já havia sido registrada em outros álbuns, projetos especiais ou trilhas de novelas, o que faz da coletânea também uma oportunidade de reencontrar parcerias que surgiram em diferentes circunstâncias da música brasileira.
A abertura fica por conta de “Química Perfeita”, com Banda Eva e Netinho. A música, lançada originalmente em 1996 e incluída no álbum Beleza Rara, marcou uma fase de grande popularidade da Banda Eva que na época tinha vocal conduzido por Ivete Sangalo. Anos depois, ganhou espaço na televisão como tema romântico de Manolo (Tony Ramos) e Aurora (Cláudia Jimenez) na novela As Filhas da Mãe, exibida em 2001. A faixa também acabou adquirindo um significado especial com a morte de Netinho, em 13 de outubro de 2026, aos 60 anos, em decorrência de complicações de um linfoma não Hodgkin do tipo B.
Duas gravações vêm do projeto Casa de Samba 3, lançado em 1999 pela Universal Music: “Verdade”, com Caetano Veloso e Gilmelândia, e “Juventude Transviada”, com Luiz Melodia e Cássia Eller. A série seguia a proposta de reunir artistas em encontros pouco convencionais, fórmula que também apareceu em Casa da Bossa e Casa de Forró. São registros ao vivo que chegaram a esta coletânea alguns anos depois, mas que tiveram outros reaproveitamentos pelo caminho.
Em “Verdade”, o encontro entre Caetano Veloso e Gilmelândia chama a atenção. Na época, Gilmelândia havia assumido os vocais da Banda Beijo, retomando o grupo em 1998, depois da saída de Netinho. Sua participação cantando samba foi uma surpresa para o público, acostumado a associá-la ao repertório de axé. A gravação também foi incluída no CD/DVD Multi Show Ao Vivo, lançamento que mistura conteúdo exclusivo do canal musical com imagens de outros projetos cedidos pela Universal Music. Essa combinação acabou gerando confusão sobre a origem de algumas apresentações e seus respectivos créditos. Portanto, sim: “Verdade” é do Casa de Samba 3.
Já “Juventude Transviada” voltou a circular em outras coletâneas após a morte de Cássia Eller, em dezembro de 2001. Primeiro, apareceu em Participação Especial de Cássia e, em 2008, foi incluída em Raridades, álbum lançado pela Som Livre. O título deste último, porém, não faz muito sentido para essa gravação: ela já havia sido reaproveitada em coletâneas da Universal Music e também estava presente em Duetos – Química Perfeita. Não era, portanto, exatamente uma raridade.
“Meu Erro”, com Zizi Possi e Os Paralamas do Sucesso, vem do Acústico MTV da banda, projeto de 1999 que contou com a participação de convidados especiais. A presença de Zizi acrescenta uma combinação vocal diferente à conhecida canção dos Paralamas. Outra gravação extraída de um especial acústico é “Mania de Você”, de Rita Lee com Milton Nascimento. Registrada em 1998 no Acústico MTV da cantora, a interpretação ganha um formato mais intimista, em piano e voz, com um clima particularmente sensual e misterioso.
Em “Feira Moderna”, o encontro é entre Roupa Nova e Zélia Duncan, em gravação originalmente lançada no álbum Ouro de Minas, de 2001. O trabalho reuniu o grupo a diversos convidados, entre eles Zélia, em um repertório que trouxe como máxima as parcerias e revisitação de canções do Clube da Esquina.
A televisão também está representada por “Era Uma Vez...”, com Sandy & Junior e Toquinho. A gravação foi realizada para a abertura da novela de mesmo nome, aproximando o universo pop da dupla ao trabalho de Toquinho, um dos nomes mais representativos da música brasileira dedicada ao público infantil. A canção também ganhou espaço em outros lançamentos: foi incluída no final do álbum Sonho Azul, de Sandy & Junior, lançado em 1998, e na coletânea Nascemos Pra Cantar, do mesmo ano. Mais tarde, ainda deu título ao álbum Era Uma Vez – Ao Vivo.
Outro registro curioso é “Preciso Dizer que Te Amo”, na interpretação de Cazuza e Bebel Gilberto. A gravação apareceu pela primeira vez na coletânea internacional Red Hot + Rio, lançada pela Verve Records em 1996. A história dessa versão tem um detalhe especial: trata-se de um registro intimista, originado de um ensaio gravado em fita cassete, cujos ruídos foram preservados. A música também ganhou interpretações de outros artistas, como Marina Lima e Leo Jaime, mas essa aproximação entre Cazuza e Bebel tem justamente na simplicidade da gravação seu diferencial.
A faixa “Falando de Amor”, com Quarteto Em Cy e MPB4, nasceu do encontro dos dois grupos no álbum Bate Boca, que reuniu as formações em uma espécie de supergrupo vocal. A música ganhou ainda mais visibilidade ao se tornar tema de abertura da novela Por Amor, ampliando sua circulação para além do público que acompanhava os trabalhos dos dois conjuntos.
Entre os encontros mais emblemáticos está “These Are the Songs (Esta É a Canção)”, com Elis Regina e Tim Maia. A gravação pertence ao álbum ...Em Pleno Verão, lançado por Elis em 1970, período anterior à consagração definitiva dos dois artistas como algumas das maiores referências da música brasileira. É um registro que aproxima duas personalidades de enorme força interpretativa.
O projeto Casa de Forró, lançado em 1998 pela PolyGram, também marca presença com “Espere Por Mim, Morena”, na interpretação de Elba Ramalho e Chico César. Seguindo a proposta de encontros entre artistas, o álbum reuniu diferentes nomes da música brasileira em apresentações ao vivo, entre elas essa parceria.
Já “Bilhete”, com Ivan Lins e Nana Caymmi, foi originalmente incluída no álbum Juntos, que reuniu composições de Ivan Lins e Vitor Martins em novos arranjos e com participações especiais. Nana Caymmi foi uma das convidadas desse projeto. Na sequência, “Gostoso Veneno” traz Alcione e Djavan, em gravação originalmente lançada no álbum Celebração, de 1998. Encomendado pela PolyGram, o trabalho revisitou sucessos da carreira da cantora, contando com convidados especiais, entre eles Djavan.
Para encerrar, a coletânea reserva “Águas de Março”, com Elis Regina e Tom Jobim. Embora Elis já tivesse gravado a composição no álbum Elis, de 1972, foi no histórico projeto Elis & Tom, lançado em 1974, que a canção ganhou uma interpretação compartilhada que se tornou referência. A gravação desse encontro é frequentemente lembrada como uma das versões definitivas da composição de Tom Jobim.
Na parte técnica, o CD foi fabricado pela Microservice Tecnologia Digital da Amazônia Ltda., sob licença da SIGLA – Sistema Globo de Gravações Audiovisuais Ltda. Os fonogramas foram cedidos pela Universal Music, com masterização de Sérgio Seabra e projeto gráfico de Marciso (Pena) Carvalho.
Duetos – Química Perfeita acaba funcionando também como um pequeno roteiro por diferentes projetos musicais que marcaram os anos anteriores à sua publicação. Para quem acompanha a discografia desses artistas e gosta de descobrir a origem das gravações presentes nas coletâneas, há bastante coisa para apreciar além dos próprios duetos.
01. Química Perfeita - Banda Eva e Netinho
03. Meu Erro (ao vivo) - Zizi Possi e Os Paralamas do Sucesso
04. Feira Moderna - Roupa Nova e Zélia Duncan
05. Juventude Transviada (ao vivo) - Luiz Melodia e Cássia Eller
07. Preciso Dizer que Te Amo - Cazuza e Bebel Gilberto
08. Mania de Você (ao vivo) - Rita Lee e Milton Nascimento
09. Falando de Amor - Quarteto Em Cy e MPB4
10. These Are the Songs (Esta É a Canção) - Elis Regina / Tim Maia
11. Espere Por Mim, Morena (ao vivo) - Elba Ramalho e Chico César
13. Gostoso Veneno - Alcione e Djavan
14. Águas de Março - Elis Regina e Tom Jobim

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