domingo, 27 de setembro de 2026

João Penca & Seus Miquinhos Amestrados – Cem Anos de Rock'n'Roll (1991)

Cem Anos de Rock’n’Roll foi lançado por João Penca e Seus Miquinhos Amestrados pela Eldorado, em 1991. O álbum dá continuidade ao universo que já havia se tornado uma marca do grupo: rock’n’roll, doo-wop e rockabilly revisitados com humor, versões, referências à cultura pop e aquele gosto deliberado pelos clichês dos anos 1950 e 60.

"Cem Anos de Rock’n’Roll" veio depois de "Sucesso do Inconsciente", álbum lançado em 1989 pelo selo Esfinge. É o velho rock visto pelo filtro debochado dos Miquinhos, com topetes, guitarras, harmonias vocais, referências cinematográficas e letras que nunca perdem a oportunidade de fazer graça. O repertório mistura composições próprias, versões e pequenas vinhetas, algo que já aparece logo no primeiro lado do LP.

O álbum começa com “Papa Umama”, versão de “Papa-Oom-Mow-Mow”, sucesso dos Rivingtons nos anos 1960. No selo, a composição original aparece creditada a Al Frazier, Turner Wilson Jr., Carl White e John Harris, enquanto a adaptação brasileira é assinada por Avellar Love, Bob Gallo, Marcelo Elo e Selvagem Big Abreu. A música se tornou um hino presente na memória afetiva do público infantojuvenil – que hoje é 40+, inclusive eu! – quando os músicos passaram a apresentá-la nos programas infantis da época.

Curiosamente, em 2005, a gravação foi parar na coletânea Maxximum: A Festa dos Anos 80, selecionada por Marcelo Fróes, mesmo se tratando de uma música deste álbum de 1991. É a boa e velha mania de associar temática trash com Anos 80.

O baile então chega a “Ma Beibe, Beibe”, de Dodô Ferreira, que começa com o som de um trem a vapor e entra numa levada country de saloon com rockabilly. Depois da agitação, o disco dá uma paradinha com a vinheta “O Guitarrista Romântico”, de autoria de Ricardo Palmeira.

“O Bom e Velho Rock’n’Roll”, por sua vez, é assinada por Selvagem Big Abreu. Um dado curioso: Angélica gravou uma faixa homônima para seu disco lançado no mesmo ano, mas trata-se de outra música, composta por Cesar Costa Filho e Luiz Sarmanho. A coincidência fica ainda mais interessante porque a vinheta do programa Milk Shake, comandado por Angélica na Manchete, foi composta e tocada por João Penca e Seus Miquinhos Amestrados.

Fechando o primeiro lado está “O Monstro”, versão de “Do You Love Me?”, composição de Berry Gordy III não creditada no LP, eternizada pelos The Contours em 1962 e posteriormente incluída em Dirty Dancing, em 1987. A versão brasileira aparece creditada a Avellar Love, Bob Gallo, Marcelo Elo e Selvagem Big Abreu. Em vez de simplesmente transportar a letra, eles levam a música para outro assunto, com frases remetendo a monstro e vampiro.

E tem uma brincadeira que passa fácil numa audição desatenta: já no final de “O Monstro”, Avellar Love canta incidentalmente frases de “Monster”, de Fred Schneider. Assim, uma música originalmente gravada pelos Contours acaba transformada pelos Miquinhos e ainda recebe, lá no finalzinho, uma piscadela para Fred Schneider.

Virando o disco, a temática vampiresca continua. “Suga-Suga”, composição de Avellar Love, Bob Gallo, Selvagem Big Abreu, Marcelo Elo e Van Santos, apresenta um eu poético que se porta como um vampiro pós-moderno: não dorme em caixão, tampouco usa capa preta, come alho, não mora em castelo e vai à praia de bermuda e chinelo. Caiu como uma luva no roteiro de Antonio Calmon em Vamp — e serviu MUITO BEM para a família Matoso!

Depois disso vêm a picante “Mulheres”, parceria de Van Santos e Alex Madureira, e a vinheta “Morceau”, de Lulu Santos, prepara o disco para o romantismo em “Viver, Sonhar”, versão de “For Your Precious Love”, de Jerry Butler Jr. e Richard Brooks, com adaptação brasileira de Orlando Morais.

Já a irreverente “Esse Meu Cabelo Rock”, de Dodô Ferreira, tem uma história particularmente ligada à imagem do próprio grupo. A música foi feita para o Campeonato Nacional de Topete, realizado em São Caetano do Sul em 1991. E dificilmente poderia haver evento mais apropriado para João Penca e Seus Miquinhos Amestrados: os enormes topetes faziam parte da identidade visual do trio, algo que a própria arte deste LP explora tanto na capa quanto nas três silhuetas de perfil da contracapa.

A música ainda teria uma sobrevida inesperada. Quatro anos depois, “Esse Meu Cabelo Rock” entrou na trilha de Explode Coração, como tema de Bebeto, personagem de Guilherme Karan, levando uma composição de 1991 para o horário nobre em 1995. Para a novela, porém, a música foi regravada com um novo arranjo, em vez de reaproveitada deste álbum, o que torna a gravação original ainda mais rara.

Na reta final aparecem “O Escorpião Escarlate”, de Bob Gallo, Selvagem Big Abreu e Guacira, e “John Holmes e a Guitarra Solitária”, creditada no selo a Selvagem e Big Abreu. Só os títulos já devolvem o disco ao território particular dos Miquinhos, onde rock, cinema, personagens e duplo sentido convivem sem pedir licença.

E convenhamos: chamar um disco de ** Cem Anos de Rock’n’Roll em 1991**, quando o próprio rock’n’roll ainda estava longe de completar cem anos, resume muito bem o espírito da coisa.

Se era para exagerar, que fosse de topete levantado.

Faixas:
01. Papa Umama (Papa-Oom-Mow-Mow)
02. Ma Beibe, Beibe
03. O Guitarrista Romântico (Vinheta)
04. O Bom e Velho Rock'n'Roll
05. O Monstro (Do You Love Me)
06. Suga Suga
07. Mulheres
08. Morceau (Vinheta)
09. Viver, Sonhar (For Your Precious Love)
10. Esse Meu Cabelo Rock
11. O Escorpião Escarlate
12. John Holmes e a Guitarra Solitária (Vinheta)

Para baixar este álbum em FLAC, clique AQUI.

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