"Ronca Ronca" é, à primeira vista, uma verdadeira salada mista de canções que você certamente classificaria como uma seleção de músicas aleatórias para tocar em uma festa estranha, com gente esquisita. Porém, isso não só não é verdade, como existiu uma festa batizada de Ronca Ronca, surgida em maio de 1993 no espaço Torre de Babel, em Ipanema, e que, em dezembro de 1994, mudou-se para o Esporte Clube, no Horto.
O evento era comandado pelo jornalista, fotógrafo, radialista e DJ brasileiro Maurício Valladares, com o propósito de afastar qualquer preconceito e abarcar todas as idades, gostos e gêneros musicais, tendo a diversão como único compromisso. O resultado era um encontro improvável de canções que, colocadas lado a lado, produziam um combo divertido e uma verdadeira oscilação de emoções. Nas palavras do próprio Valladares, tratava-se de "um acasalamento de canções".
É justamente essa proposta que ajuda a compreender o repertório da coletânea. Em vez de seguir uma linha musical definida, as faixas transitam livremente entre rock, pop, soul, música brasileira, dance music e clássicos de diferentes épocas, criando combinações que, isoladamente, poderiam parecer improváveis, mas que fazem sentido dentro da lógica do Ronca Ronca.
A seleção reúne desde o remix de "Boys Don't Cry", do Professor Antena, e o R&B de R. Kelly e C.J. Lewis, passando pelo funk brasileiro da Banda Black Rio, a reinvenção pop de Lulu Santos, o blues de B.B. King e The Commitments, e Annie Lennox, relendo um sucesso do The Clash sob o remix de Todd Terry, até o rock brasileiro não óbvio de Picassos Falsos, o classic rock de Steppenwolf, o indie rock do Elastica, o rockabilly de Bill Haley & His Comets, a Jovem Guarda de Celly Campello e o pop italiano inusitado de Rita Pavone. É justamente esse trânsito sem cerimônia entre estilos, épocas e referências que transforma a aparente desordem em identidade.
E por que eu postei na Gazeta do Som? Justamente para quem quiser adicionar este material fora de catálogo ao seu pendrive e ouvir uma programação sonora descontraída, capaz de fugir do óbvio. Afinal, em tempos de playlists repletas de canções batidas do streaming, vale lembrar o que a indústria fonográfica sabia fazer de melhor: apostar em discos que, com o passar do tempo, ganhassem relevância e proporcionassem uma experiência musical pensada de ponta a ponta — algo cada vez mais raro nos dias de hoje.
01. Boys Don't Cry (Dudu Marote Remix) - Professor Antena
02. I Like the Crotch on You - R. Kelly
03. R to the A - C.J. Lewis
04. Saci Pererê - Banda Black Rio
05. Assim Caminha a Humanidade - Lulu Santos
06. In The Midnight Hour - B.B. King
07. Mustang Sally - The Commitments
08. Train in Vain (T's Mix) - Annie Lennox
09. Carne e Osso - Picassos Falsos
10. Born to Be Wild - Steppenwolf
11. Connection - Elastica
12. (We're Gonna) Rock Around the Clock - Bill Haley & His Comets
13. Estúpido Cupido (Stupid Cupid) / Banho de Lua (Tintarella Di Luna) - Celly Campello
14. Datemi un Martello - Rita Pavone

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