Lançado em 1989 pela gravadora independente Esfinge, Sucesso do Inconsciente é o quarto álbum de estúdio do João Penca e Seus Miquinhos Amestrados, um dos grupos mais irreverentes e criativos do rock brasileiro dos anos 1980. Misturando rock and roll clássico, surf music, new wave, humor e paródias, a banda construiu uma identidade única ao transformar referências da cultura pop, do cinema e da Jovem Guarda em canções cheias de personalidade.
Mais do que uma banda de rock surgida nos anos 1980, o João Penca & Seus Miquinhos Amestrados recuperava um formato que havia sido muito popular nas décadas de 1950 e 1960: o trio vocal que cantava, dançava e dividia igualmente o protagonismo do palco. Avellar Love (baixo), Bob Gallo (tenor) e Selvagem Big Abreu (barítono) construíam harmonias inspiradas nos grupos vocais norte-americanos, enquanto a performance ao vivo reforçava essa identidade. Com microfones de pedestal, coreografias cuidadosamente ensaiadas, figurinos elegantes e uma presença de palco que remetia aos primeiros anos do rock and roll, o trio transformava cada apresentação em um espetáculo visual e musical.
Vista sob a perspectiva atual, essa proposta lembra o conceito que décadas depois seria associado às chamadas boy bands: um grupo em que imagem, performance e vozes formavam uma unidade. A diferença é que o João Penca buscava inspiração diretamente na estética do rock clássico. A influência de Elvis Presley, dos conjuntos vocais do doo-wop, da surf music e da Jovem Guarda nunca foi abandonada; ao contrário, tornou-se a base sobre a qual a banda construiu uma linguagem própria.
Essa identidade também dialoga com a trajetória de Léo Jaime, idealizador do projeto ao lado dos integrantes em seus primeiros anos e colaborador frequente do grupo. Sua participação em "SOS Miquinhos" simboliza a permanência desse vínculo criativo e ajuda a compreender a coerência estética que acompanhou o João Penca desde os primeiros discos.
Nos álbuns lançados pela RCA, essas referências conviviam com sintetizadores, guitarras mais processadas e a sonoridade típica da new wave que dominava o rock brasileiro da época. Em Sucesso do Inconsciente, entretanto, essa equação parece se inverter. Sem abandonar completamente os elementos contemporâneos, o trio aproxima seu repertório de um rock mais orgânico, em que o peso das harmonias vocais, das guitarras e das referências sessentistas ganha maior destaque. O resultado é um álbum que, mais do que acompanhar as tendências de 1989, apresenta ao ouvinte as raízes musicais que sempre estiveram no centro da identidade do João Penca & Seus Miquinhos Amestrados.
Em Sucesso do Inconsciente, essa fórmula aparece amadurecida. O álbum reúne composições inéditas, releituras bem-humoradas e paródias que dialogam diretamente com a história do rock, mantendo o estilo descontraído que consagrou o grupo. Entre os destaques está "Matinê no Rian", faixa que contou com a participação especial de Paula Toller e ganhou grande projeção ao ser escolhida como tema de abertura da novela O Sexo dos Anjos, da TV Globo.
A canção presta homenagem ao antigo Cinema Rian, tradicional sala de exibição localizada em Copacabana, no Rio de Janeiro. Inaugurado em 1932 por iniciativa de Nair de Tefé, esposa do presidente Hermes da Fonseca, o cinema tornou-se um dos símbolos culturais da cidade antes de ser demolido em 1983. A lembrança desse espaço reforça o caráter nostálgico presente em boa parte da obra do João Penca.
Outro momento marcante do disco é "SOS Miquinhos (Merdley)", como a própria banda definiu, em tom de brincadeira, um "merdley": uma sequência de músicas costuradas em formato de medley, reunindo trechos de clássicos da música brasileira e internacional, entre eles "Namoradinha de um Amigo Meu", "Rua Augusta", "Vem Quente que Eu Estou Fervendo" e "Yellow River", da banda britânica Christie. A faixa sintetiza perfeitamente o espírito irreverente do grupo, que transformava citações musicais em parte de sua própria linguagem.
Como em trabalhos anteriores, o álbum também traz versões inspiradas em clássicos do rock internacional. "Johnny Pirou" faz uma divertida releitura de "Johnny B. Goode", de Chuck Berry, enquanto "O Monstro Macho" brinca com "Monster Mash", sucesso de Boris Pickett and the Crypt-Kickers. Em vez de simples versões, o João Penca adaptava essas canções ao universo brasileiro, incorporando humor, trocadilhos e novas situações.
Produzido por Júnior Mendes, Sucesso do Inconsciente representa a fase final da discografia de estúdio do João Penca durante os anos 1980 e preserva todas as características que fizeram da banda um fenômeno singular do rock nacional: irreverência, criatividade e um profundo carinho pela história do rock and roll.
Em 1991, o trio ainda lançaria Cem Anos de Rock 'n' Roll, pela Eldorado. Depois desse trabalho, as atividades diminuíram e, em 1993, a coletânea A Festa dos Micos reuniu alguns dos principais momentos da carreira. Curiosamente, de Sucesso do Inconsciente, apenas "Matinê no Rian" e "SOS Miquinhos" foram incluídas, enquanto o restante do álbum acabou permanecendo fora de circulação e distante da memória do grande público.
A trajetória de Sucesso do Inconsciente acabou sendo marcada por uma série de circunstâncias que extrapolaram seu conteúdo artístico. Lançado em meio às dificuldades enfrentadas pela Esfinge, o álbum chegou ao mercado justamente quando a gravadora atravessava sua fase mais delicada. O encerramento das atividades do selo no ano seguinte comprometeu a continuidade de sua divulgação e contribuiu para que parte do catálogo permanecesse por muitos anos restrita ao lançamento original. Diferentemente de outros títulos da discografia do João Penca, Sucesso do Inconsciente acabou acumulando um desgaste editorial que dificultou sua circulação nas décadas seguintes.
Revisitar hoje este LP é também revisitar uma parte da história do rock brasileiro que acabou ficando à margem das grandes retrospectivas. Ao longo de sua trajetória, o João Penca e Seus Miquinhos Amestrados construiu uma linguagem própria ao combinar humor, cultura pop e um profundo respeito pelas raízes do rock and roll, muito além da imagem irreverente que o consagrou na televisão.
Embora boa parte do público retorne com frequência aos discos da fase RCA e PolyGram, Sucesso do Inconsciente oferece uma oportunidade diferente: conhecer a banda por um trabalho menos lembrado, mas que sintetiza com clareza muitas das referências musicais e estéticas que definiram sua identidade.
Esta remasterização da Gazeta do Som procura justamente resgatar esse capítulo da discografia do trio, permitindo que o álbum volte a ser ouvido em toda a sua força por antigos admiradores e por quem deseja descobrir uma das obras mais singulares do rock brasileiro dos anos 1980.
Como complemento a esta remasterização, a Gazeta do Som também apresenta uma reconstrução da versão promocional original de "S.O.S Miquinhos". A partir de uma gravação preservada no YouTube e de trechos da versão oficialmente lançada em LP, foi possível reconstituir a faixa em sua forma mais próxima da apresentada antes das alterações que antecederam seu lançamento comercial.

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