segunda-feira, 29 de junho de 2026

MPB4 - Tempo Tempo (1982)

Lançado em 1982 pela Ariola, Tempo Tempo marca um dos momentos mais interessantes da trajetória do MPB4. Em plena efervescência criativa da música brasileira, quando festivais como o MPB-80 e o MPB Shell revelavam novos compositores e aproximavam diferentes linguagens musicais, o quarteto demonstrava estar atento às transformações daquele cenário. Sem abrir mão da sofisticada identidade vocal que o consagrou desde os anos 1960, o grupo construiu um álbum que dialoga com a produção contemporânea e, ao mesmo tempo, reafirma o objetivo de comunicar a identidade artística do MPB4 ao grande público.

Essa característica se revela logo na escolha do repertório. Em vez de seguir uma única linha estética, com compositores tradicionais, Tempo Tempo estabelece uma ponte entre diferentes vertentes da canção brasileira. O disco abre com o samba Cavalo de Batalha um hino ao povo brasileiro que sofre mas não desiste das lutas diárias e traz uma mensagem de esperança em um tempo de transição rumo às Diretas Já, composto por Miltinho, José Renato (Boca Livre) e Paulo César Pinheiro – este, parceiro recorrente de Ivan Lins –, e  encerra sua sequência com a delicada Oração ao Tempo, de Caetano Veloso, comunicando que mesmo em meio a um processo de luta, era preciso calma e esperança para vencer os desafios da vida.

Em termos de renovação e busca de ares fora do grupo, o álbum apresenta Anjo Sereia, parceria entre Miltinho e Alceu Valença; traz O Gato (Teorema), de Danilo Caymmi e Paulo Jobim, reunindo duas importantes linhagens da música brasileira; resgata Desmame, de Renato Rocha, compositor ligado à cena pernambucana e parceiro de Geraldo Azevedo; e inclui Batalha, marcha composta por Paulo Rafael, guitarrista cuja trajetória atravessa experiências marcantes como o Ave Sangria e, posteriormente, a banda de Alceu Valença.

Mais do que uma simples reunião de canções, o álbum revela a impressionante capacidade do MPB4 de transformar essa diversidade em unidade. Samba, música nordestina, canção urbana, influências do jazz, da música instrumental e até ecos do rock psicodélico convivem naturalmente ao longo do disco, sem que em nenhum momento a identidade do grupo seja diluída. Pelo contrário: são justamente os característicos arranjos vocais do quarteto que funcionam como elemento de coesão, fazendo com que composições de universos tão distintos passem a integrar um mesmo discurso musical.

Um aspecto que a ficha técnica de Tempo Tempo deixa particularmente evidente é que o MPB4 jamais se limitou à condição de um quarteto vocal. Embora reconhecido pelo refinamento de suas harmonizações, o grupo também desempenhava um papel decisivo na concepção musical de seus discos. Em Tempo Tempo, essa característica aparece de forma inequívoca: Antonio José Waghabi Filho, o Magro, assina a maior parte dos arranjos, orquestrações e regências, enquanto Ruy Faria e Miltinho também contribuem como arranjadores em faixas específicas, evidenciando que a identidade sonora do álbum nasce no próprio grupo.

Gravado nos estúdios da SIGLA e reunindo alguns dos músicos mais respeitados da cena brasileira, o álbum, que tem Marco Mazzola na direção artística, ainda conta com nomes como Cesar Camargo Mariano, José Roberto Bertrami, Hélio Delmiro, Wilson das Neves, Márcio Montarroyos, Gilson Peranzzetta, Sivuca, Paulo Rafael, Danilo Caymmi e uma extensa formação de sopros e cordas. Longe de representar um desfile de participações especiais, cada músico contribui para ampliar a paleta sonora do disco, sempre em função das canções.

O repertório também dialogava com obras que ocupavam lugar de destaque naquele momento. A presença de Magia, composta por Kleiton Ramil e Magro, aproximava o grupo do grande público ao integrar a trilha sonora da novela Sétimo Sentido, exibida pela Rede Globo em 1982. Já a canção Almanaque, trata de incorporar uma canção de Chico Buarque, lançada pouco antes no álbum homônimo do compositor, reforçando o interesse do quarteto por compositores que continuavam renovando a música popular brasileira.

Mais de quatro décadas depois, Tempo Tempo permanece como um retrato de um período especialmente fértil da produção musical brasileira. Um tempo em que as fronteiras entre estilos pareciam menos importantes do que a força das boas canções; em que músicos vindos do samba, da MPB, da música nordestina, do jazz, da música instrumental e até do rock podiam compartilhar o mesmo estúdio e construir uma obra de rara coerência artística. O MPB4 compreendeu esse espírito e o traduziu em um álbum que continua recompensando audições atentas, revelando, faixa após faixa, a riqueza de um dos momentos mais criativos da música brasileira.

Embora a Universal Music detenha atualmente o catálogo oriundo da PolyGram e de selos como Ariola, Barclay, Elenco, Lança e Polydor, o álbum jamais recebeu uma edição digital completa a partir de suas masters originais. Como consequência, uma obra representativa de um dos momentos mais criativos da música brasileira permanece praticamente inacessível às novas gerações, tendo apenas a faixa Almanaque ao acesso do público por meio das coletâneas Millennium e Sem Limite. 

Em algum momento, a identidade artística de discos como Tempo Tempo parece ter deixado de interessar às sucessoras da PolyGram. A partir da consolidação dos projetos conjuntos entre MPB4 e Quarteto em Cy, o repertório do quarteto masculino passou a ser revisitado quase sempre sob a lógica das coletâneas, privilegiando as canções mais batidas, diluindo a personalidade dos álbuns originais. O resultado dessa política editorial é perceptível até hoje: enquanto compilações se sucedem, obras concebidas como experiências completas permanecem ausentes do mercado digital, impedindo que novas gerações conheçam canções interessantes e o contexto em elas nasceram.

Talvez seja justamente essa a maior injustiça cometida com Tempo Tempo. Lançado em uma fase de intensa renovação estética do MPB4, o álbum acabou obscurecido por uma memória discográfica que privilegia quase sempre os grandes marcos da década de 1970. Ao permanecer inédito no ambiente digital, deixa de contar a história de um grupo que, longe de repetir fórmulas, continuava experimentando, dialogando com novos compositores e reafirmando sua capacidade de reinventar a própria linguagem.

Disponibilizar este disco por meio de um projeto independente não significa apenas recuperar um álbum fora de catálogo. Significa devolver ao público uma obra que permanece relevante por sua inventividade, permitindo que uma nova geração descubra outras possibilidades sonoras da música brasileira e ressignifique um capítulo injustamente esquecido de nossa produção fonográfica.

Faixas:
01. Cavalo de Batalha
02. Mulher Maio
03. O Gato (Teorema)
04. Anjo Sereia
05. Almanaque
06. Magia
07. Desmame
08. Doce, Doce
09. Batalha
10. Oração ao Tempo

Para baixar este álbum em FLAC, clique AQUI.

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