O Banda Contrabanda é mais do que uma coletânea de bandas dos anos 80. Lançado em 1986 pela Polyfar/PolyGram, o álbum acabou se tornando um retrato raro e espontâneo de uma geração que tentava encontrar espaço em meio à explosão do rock brasileiro daquele período.
Enquanto nomes como Legião Urbana, Paralamas do Sucesso, Titãs e RPM dominavam rádios, programas de televisão e grandes gravadoras, o projeto Banda Contrabanda abriu espaço para grupos ainda desconhecidos, vindos principalmente do circuito de festivais, casas noturnas e danceterias do eixo Rio–São Paulo.
O disco nasceu a partir de um concurso realizado na Danceteria Metrópolis, no Rio de Janeiro, em julho de 1986, reunindo bandas que carregavam influências muito diversas: rock, funk, reggae, synthpop, new wave e até traços de MPB urbana. O resultado é um painel curioso da efervescência musical daquele momento, onde conviviam letras existenciais, romances juvenis, críticas sociais e a estética eletrônica típica da década.
Entre os destaques está a vencedora 747, com “Vem Pra Cá”, faixa que traduz bem o espírito pop radiofônico da época, equilibrando romantismo e arranjos modernos. Já o Uns e Outros, segundo colocado do festival, apresentava em “Dois Gumes” uma sonoridade mais densa e urbana, antecipando elementos que mais tarde marcariam a trajetória da banda no cenário alternativo brasileiro.
O encarte do LP – que infelizmente acaba não ganhando o mesmo registro textual em K7 – funciona também como um almanaque histórico. Os textos promocionais exaltam “rock tecnológico”, “superprodução de palco”, “som jovem” e “energia pop”, enquanto as letras falam de solidão, Guerra Fria, paixões intensas, desejos e inseguranças urbanas. Há algo extremamente autêntico aqui: bandas ainda em formação tentando definir identidade própria num período em que o rock nacional vivia sua fase mais comercial e expansiva.
Outro aspecto fascinante do Banda Contrabanda é justamente sua condição de documento de época. Muitas dessas bandas não alcançaram grande projeção nacional, mas o disco preserva um circuito musical que existia paralelamente ao mainstream — feito de festivais, demos, casas noturnas e apostas de gravadoras em busca da “próxima grande banda”.
Revisitar hoje esse álbum é mergulhar também em uma cena musical raramente documentada da década de 80: artistas que ficaram entre o underground e o mercado fonográfico, registrados num vinil que acabou adquirindo valor afetivo, histórico e cult entre colecionadores e pesquisadores do rock brasileiro.
O álbum foi gravado nos Estúdios PolyGram e Transamérica (Rio de Janeiro), com direção artística de Marcelo Castello Branco e coordenação de produção de Maria Helena. O projeto dinada conta com capa da Liber Comunicação e Rodolpho Xavier. O livreto interno contém textos explicando o surgimento de cada banda, apresentação dos músicos das faixas, participações especiais, compositores e, claro, a letra de cada canção.
Apesar da banda 747 ter vencido o festival, algumas participantes acabaram deixando registros fonográficos rastreáveis antes ou depois do projeto:
- Oficina de Luz – no ano anterior gravou um álbum pela CID chamado "Rock Sucessos", que como o nome diz, é um álbum que a banda toca covers de sucessos antigos e do momento;
- Mirage – seus músicos estiveram em projetos antes da formação do Mirage, como Armação Ilimitada (TV Globo), A Era dos Halley (TV Globo) e o filme nacional Rock Estrela. Após o festival, gravaram um único álbum em 1990, com os cucessos "No Balanço do Trem" e "Velho Johnny", esta última presente na coletânea Milk Shake, da Bloch Discos.
- Areia Quente – a banda gravou tão somente uma faixa de nome "Perdão" pelo selo PolyGram, que figurou como tema da novela Mandala em 1987.
- Uns e Outros – após o festival, a banda ganhou destaque radiofônico com "Dois Gumes" uma sucessão de êxitos fonográficos: os álbuns de estúdio Nós Normais (1987, PolyGram), Uns e Outros (19898, Epic/CBS), A Terceira Onda (1990, Epic/CBS), Tão Longe do Fim (2002, Seven Music) e Canções Sobre Amor e Ódio (2006, Performance Music/Universal) e o álbum Ao Vivo (2015, Sony Music).
O trabalho de digitalização e organização desse material ajuda a preservar não apenas um disco raro, mas toda uma atmosfera cultural de um Brasil que descobria novas sonoridades, novos comportamentos e uma juventude cada vez mais conectada à linguagem pop da época. Para isso contei com o apoio cultural de Israel Castro (Campina Grande/PB), que comprou o LP para digitalização e remasterização.
01. Vem pra Cá - 747
02. Nunca Disse Que Não - Cilada Mixta
03. Olhar - Logotipo
04. Doce Veneno - Filhos da Pauta
05. Última Geração - Mirage
06. O Mesmo Jogo - Oficina de Luz
07. Dois Gumes - Uns e Outros
08. Louco pra Te Achar - Espiral
09. Tramas - Bugi Gang
10. Pés na Estrada - Areia Quente
11. Vai Fundo - Trânsito Livre
12. Todos os Olhos - Ticket

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