sexta-feira, 22 de maio de 2026

Sheryl Crow - The Unreleased First Album (1992)

Em 1991, pouco depois de assinar contrato com a A&M Records, Sheryl Crow entrou em estúdio para gravar aquele que seria seu álbum de estreia em uma grande gravadora. Produzido entre 1991 e 1992 ao lado do renomado produtor Hugh Padgham – que no ano seguinte produziria "Ten Summoner's Tales" do cantor Sting –, o disco homônimo Sheryl Crow chegou a ser concluído e preparado para lançamento oficial em 22 de setembro de 1992.

O projeto, no entanto, jamais chegou às lojas. Tanto a cantora quanto a gravadora consideraram o resultado “produzido demais”, distante da espontaneidade e da identidade artística que Crow buscava naquele momento. A própria artista descreveu este trabalho como “maduro demais”, enquanto a A&M estava alinhada com a decisão da artista, acreditando em um trabalho mais orgânico e acessível com a geração de jovens da décadas de 1990. Em comum acordo, o álbum foi arquivado.

Ainda assim, algumas poucas cópias promocionais em fita cassete chegaram a ser produzidas pela gravadora, acompanhadas de press kits oficiais preparados para divulgação à imprensa e rádios. Essas fitas nunca foram destinadas à distribuição comercial ampla, tornando-se posteriormente itens raríssimos entre colecionadores. Décadas depois, exemplares passaram a aparecer ocasionalmente em plataformas de leilão e colecionismo, enquanto o conteúdo completo do álbum acabou vazando na internet.

Curiosamente, a faixa “Father Sun” aparece grafada incorretamente como “Father Son” no encarte original da cassete promocional.

O release preparado pela gravadora destacava participações de músicos como Dominic Miller, Vinnie Colaiuta e Pino Palladino, além de uma colaboração especial de Don Henley na faixa “What Does It Matter”. O texto promocional apresentava Crow como uma compositora sofisticada, autora de “canções pop sombrias”, escritas durante um período turbulento de sua vida pessoal e profissional.

Embora tenha sido arquivado antes de seu lançamento oficial, o álbum Sheryl Crow acabou deixando rastros importantes na música pop dos anos 90. Antes mesmo de alcançar fama mundial, Sheryl Crow já era considerada uma artista em ascensão, aparecendo discretamente em trilhas sonoras e colaborações. A faixa “Hundreds of Tears”, presente neste álbum cancelado, integrou a trilha sonora do filme Point Break (Caçadores de Emoção, no Brasil).

Outra composição ligada ao projeto, “All Kinds Of People”, escrita em parceria de Crow com Kevin Gilbert, ganharia diferentes interpretações ao longo da década. A música foi gravada por Tina Turner em seu álbum Wildest Dreams (1996), além de ter sido lançada pelo grupo Big Mountain no álbum Free Up (1997). No Brasil, a faixa tornou-se conhecida ao integrar a trilha sonora da novela Malhação em 1998.

A cantora cristã Susan Ashton também reinterpretou parte desse repertório em seu álbum A Distant Call, incluindo versões de “All Kinds Of People” e “Hundreds of Tears”.

Outra curiosidade envolve “Love You Blind”: a canção já havia sido gravada por Celine Dion em 1989, durante as sessões do álbum Unison. A gravação acabou sendo lançada oficialmente em 1992 como lado B do single “If You Asked Me To”.

Após o engavetamento do projeto, Sheryl Crow retornaria ao estúdio para reconstruir sua estreia artística em uma direção mais crua e informal. O resultado seria o aclamado álbum Tuesday Night Music Club, lançado em 1993 e responsável por transformá-la em um fenômeno internacional.

Recentemente, tive acesso aos arquivos em FLAC provenientes de uma dessas raríssimas fitas promocionais e realizei um processo completo de restauração sonora. A transferência recebeu tratamento de abertura de áudio e recuperação de equalização por meio do plug-in U-He Satin, buscando restaurar o brilho e a definição parcialmente abafados pela transcrição original do cassete. Como consequência natural desse processo, parte do ruído de fita tornou-se mais evidente, exigindo posteriormente uma drenagem e redução agressiva de ruído através da ferramenta de IA MVSep, preservando ao máximo a integridade musical e o caráter original das gravações — algo praticamente impossível em ferramentas tradicionais de redução de ruído, como Hiss Removal ou Noise Reduction convencionais, que frequentemente “metalizavam” o áudio e comprometiam transientes, ambiência e textura musical. 

Neste caso, o processamento baseado em treinamento neural permitiu uma separação muito mais precisa entre o conteúdo musical e o ruído de fita, resultando em uma restauração significativamente mais transparente e natural. Por esta razão, o resultado final impressiona. É, senão, uma das apresentações mais limpas e detalhadas já extraídas desse álbum engavetado de 1992, revelando nuances de produção e interpretação que muitas versões circulando online simplesmente enterravam sob chiado e degradação da fita.

Talvez o maior conflito envolvendo Sheryl Crow (1992) tenha sido justamente sua identidade artística. O álbum refletia fortemente o universo musical que cercava Sheryl Crow naquele período: músicos de altíssimo refinamento técnico, produção meticulosa e composições marcadas pela sofisticação melódica do pop adulto norte-americano do fim dos anos 80 e início dos 90. Ecos de artistas como Toto, Stevie Wonder, Kenny Loggins e até Michael Jackson parecem atravessar discretamente várias dessas gravações.

Não por acaso: antes da fama, Crow viveu intensamente os bastidores da indústria musical norte-americana como backing vocalista e colaboradora de estrada, absorvendo justamente esse padrão de excelência artística e precisão de estúdio. O resultado foi um álbum sofisticado, tecnicamente refinado e, em muitos momentos, distante da identidade folk-rock mais espontânea e interiorana que ela posteriormente escolheria para si.

Talvez tenha existido o receio de que aquelas canções acabassem definindo artisticamente uma versão de Sheryl Crow que ela própria não desejava — ou não acreditava conseguir sustentar a longo prazo. Ao abandonar esse projeto, Crow parece ter voltado simbolicamente às próprias raízes no Missouri, aproximando-se do folk, do country e de uma estética mais orgânica que culminaria em Tuesday Night Music Club.

Ainda assim, parte da força desse álbum cancelado está justamente em revelar uma outra possibilidade de carreira. Faixas como “All Kinds Of People”, coescrita com Kevin Gilbert, carregam uma luminosidade melódica quase solar — característica que seria posteriormente potencializada pela leitura reggae do Big Mountain e reinterpretada com elegância pop sofisticada por Tina Turner. Mesmo arquivado, Sheryl Crow permanece como um fascinante retrato de uma artista em pleno processo de definição de sua própria identidade.

Faxas:
01. All Kinds Of People
02. Father Sun 
03. What Does It Matter - feat. Don Henley
04. Indian Summer
05. I Will Walk With You
06. Love You Blind
07. Near Me
08. When Love Is Over 
09. You Want It All 
10. Hundreds Of Tears 
11. The Last Time
12. On Borrowed Time

Para baixar este álbum remasterizado em FLAC, clique AQUI.
 

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