AdCanto (1982): A Arquitetura Sonora de uma Relíquia Mineira
O AdCanto é um quarteto vocal de multi-instrumentistas que apresenta uma sonoridade única, unindo a arte renascentista barroca à música mineira influenciada pelo Clube da Esquina. A formação clássica contava com Jairo Lara (guitarra, voz e flauta), Kiko Lara (baixo e violoncelo), Lemão Lara (bateria e voz) e Lou Petrus (violão, violino e voz).
Para entender a profundidade deste quarteto fantástico, é preciso olhar para a sua árvore genealógica. O nome AdCanto nasceu com uma formação original que incluía Eric Lara e seu irmão Geraldo Lara (Gê Lara). Com a morte precoce de Eric, o grupo original se dissolveu, mas em 1972 o nome foi generosamente cedido aos músicos do Grupo Fórmula — composto por Jairo Lara (irmão de Eric), Lemão Lara (irmão de Geraldo) e o primo Kiko Lara. Com a saída de Davi Dâmaso e a chegada do amigo Lou Petrus, a formação que faria história estava consolidada.
Sob a batuta de Túlio Mourão — o "quinto elemento" do grupo — essa nova formação do AdCanto elevou a música regional a um patamar universal. Eles criaram uma harmonia vocal que bebe direto da fonte renascentista e do canto gregoriano. Como relatado por Lou Petrus no canal Se Liga TV, essa essência barroca e erudita está entranhada na identidade de cada integrante.
Arquitetura Sonora e o Padrão RCA
A gênese deste LP de 1982 é fascinante. Segundo Kiko Lara (vocalista principal) relata em matéria recente da TV Alterosa, o grupo aproveitou uma brecha de apenas seis horas que sobraram da gravação do projeto MPBC - Vitrine, de Túlio Mourão, em 1980. Jairo Lara já havia participado deste disco tocando flauta e violão, e essa proximidade permitiu que o AdCanto mostrasse, finalmente, o que tinha em mente usando uma infraestrutura de elite.
Contudo, nota-se que o virtuosismo do quarteto original foi, em estúdio, emoldurado por uma "cozinha" de músicos transitórios de elite. Nomes como Luizão Maia, Picolé, Braz Limongi, Eduardo Souto Neto e Luiz Avelar até garantem um padrão ouro de perfeição técnica que, embora impecável, nem sempre refletia a dinâmica orgânica dos quatro tocando juntos.
Ao incluir nomes como o americano Scott Ackley na guitarra e o tcheco Zdenek Svab na trompa, a produção de Fernando Adour tentou conferir ao projeto um padrão internacional que por vezes sufocou a essência do grupo.
De fato, o grupo sempre afirmou o lirismo em seu DNA. Entrtanto essa essa tentativa de dar um "pedigree" de orquestra de câmara a um quarteto que nasceu da pureza dos corais de Minas acabou criando um som impecável, mas que sacrificou parte da essência mineira em favor das sutis pretensões da gravadora. É o registro de um momento onde a perfeição técnica colidiu com a alma de músicos que buscavam a verdade acima dos artifícios da indústria, mesmo sendo inegavelmente uma obra incrível e indispensável para a coleção de quem ama música brasileira de qualidade.
"Alma de Músico": O Manifesto do Hiato
O ponto central da obra é a canção "Alma de Músico", parceria de Túlio Mourão com Jairo Lara. Mais do que um sucesso que rivaliza com o hino oficial de Divinópolis, a letra funciona como uma filosofia que parece ter determinado o destino do grupo. Ao cantar "porque nunca troco nem por pão / minha alma de músico / prá cantar minha fé na gente", o AdCanto estabeleceu um limite ético.
O grupo desfez as atividades logo após o lançamento, e essa canção explica o porquê: o peso de não se deixar vender para manter a essência musical. O hiato, que durou décadas, foi o preço pago pela integridade artística, embora o tema central do documentário homônimo de Diego Lara não tenha sido totalmente revelado, ficando como um convite a todos para assistirem e descobrirem as nuances dessa história.
Gegê Lara – primo do documentarista e produtor musical –, abriu seu coração em depoimento para a matéria do programa Agenda (Rede Minas), expondo que, mesmo sem poder decisório sobre os desígnios do grupo, não queria que certas canções tivessem entrado para o repertório do disco se soubesse que aquele seria único registro fonográfico do AdCanto. Essa fala dele talvez dá pistas sobre o documentário que expõe de forma honesta a história dos quatro garotos de Divinópolis e de certa forma os reconecta para um possível retorno.
Ao observar as palavras de Lou Petrus deixadas em entrevista para o Canal Se Liga TV, percebe-se que o hiato, embora longo, não foi um ponto final, mas uma preservação. O desejo de reunião e a existência de material inédito mostram que a "Alma de Músico" nunca deixou de vibrar.
Nota sobre a remasterização
Para este registro digital do LP, foi utilizada uma agulha Ortofon Concorde Club (Elíptica), escolhida especificamente para garantir uma leitura com maior precisão dos sulcos e fidelidade à resposta de frequência original. O processo de remasterização contou com a redução de ruídos residuais através do MVSep DeNoise, preservando a dinâmica da obra e entregando uma clareza que faz justiça à sofisticação do quarteto divinopolitano.
Colaboração para estrutura textual: Gemini AI
01. Riso do Verão
02. Navegante
03. Canção Morena
04. Canto Catalão de Natal
05. O Ouro da Estrada
06. Serenata pra São Jorge
07. Coração
08. Alma de Músico
09. União
10. Fuga
11. Nós Dois

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