JOBIM: O Testamento da Cadência em "Antonio Brasileiro" (1994)
Existem discos que são coleções de canções e existem discos que são documentos históricos. "Antonio Brasileiro", lançado em 1994 pelo selo Globo/Columbia (Ref: 419.058), é o auge dessa distinção. Este álbum — o último grande registro em vida do Maestro — é uma peça que hoje ganha contornos de raridade para o público digital, já que não consta no catálogo das principais plataformas de streaming.
O Nascimento de uma Grife: "Apenas Jobim"
O projeto visual, com fotos de Ana Lontra Jobim, já entregava a intenção: na capa, apenas JOBIM. O mestre estava em um momento de plenitude aos 67 anos, acompanhado pela sua Banda Nova e sob a produção de seu filho Paulo Jobim e seu neto Daniel Jobim. Não foi uma despedida planejada; Tom estava se lançando como uma grife internacional sob o selo Jobim Music. Ele não sabia que morreria; estava se queixando de dores, mas focado na produção artística e técnica.
O Imbróglio do Grammy e o "Limbo" Digital
A obra rendeu a Jobim o Grammy de "Melhor Álbum de Jazz Latino" em 1996. Esse reconhecimento internacional veio após o lançamento mundial feito pela Sony Latin Jazz em 1995. Diante da ausência deste título nos serviços de assinatura atuais, o trabalho de ripar a mídia física original torna-se a única forma de acessar a fidelidade sonora planejada por Jobim.
Dinastias em Harmonia: Jobim, Caymmi e Afeto
A análise do encarte revela que este não é apenas um disco solo, mas um encontro de dinastias. A família Caymmi é a espinha dorsal: Danilo e Simone Caymmi participam do disco todo. O auge é ouvir o patriarca Dorival Caymmi cantando em "Maracangalha" e "Maricotinha", selando a amizade histórica entre as famílias. No campo do afeto familiar, Tom traz sua filha Maria Luiza Jobim, então com 7 anos, para cantar a faixa composta em sua homenagem, equilibrando o rigor do disco com a doçura da nova geração.
O Rigor Técnico e os Dados "Para lá de Interessantes":
A Força das Novelas: O álbum deu "casa" definitiva para temas que pararam o Brasil. "Querida" (abertura de O Dono do Mundo) e a instrumental "Surf Board" (tema de Pátria Minha) mostram como Jobim elevava a música de massa ao status de obra de concerto.
Piano na Mangueira: A sofisticação aqui atinge outro patamar. Gravada originalmente no álbum Paratodos (1993) de Chico Buarque, a música ganha neste CD uma roupagem orquestral sem precedentes. Com letra de Buarque e música de Jobim, a faixa é elevada pelo naipe de sopros: Raul de Souza (trombone), Marcio Montarroyos (trompete) e Edeneck Svab (trompa).
Só Danço Samba: Traz a citação de "Intermission Riff" de Stan Kenton, provando o diálogo constante com o Jazz.
Pato Preto: Composição de Jobim gravada originalmente por João Gilberto (1980), ganha aqui uma leitura nova e definitiva pela Família Jobim.
Homenagem ao Clube da Esquina: Jobim traduz "Trem Azul" (Lô Borges/Ronaldo Bastos) para o inglês ("Blue Train") e mantém o rigor do improviso original de Toninho Horta.
Resgate Literário: Recupera "Trem de Ferro", poema de Manoel Bandeira que Jobim musicou e que foi gravado originalmente por João Gilberto em 1961.
O Mestre e o Rei: Em "Meu Amigo Radamés" (homenagem a Gnattali) e "Radamés y Pelé", Tom une a técnica erudita à plasticidade do futebol. É o talento e o rigor do Brasil que deu certo.
O fator Sting: A participação de Sting e Ron Carter (cedidos pela A&M e Toshiba EMI) em "How Insensitive (Insensatez)" mostra que a cadência de Jobim era a linguagem universal da excelência.
Ficha Técnica Consolidada (Encarte e Contracapa):
Produção: Paulo Jobim e Daniel Jobim.
Direção Artística: Aramis Barros (Som Livre).
Arranjos: Antonio Carlos Jobim (Base/Vocais) e Paulo Jobim (Cordas/Metais).
Mixagem: Marcos Sabóia (Estúdio Impressão Digital).
Engenharia Adicional: Gravado nos estúdios Som Livre e Hit Factory (NY).
Afinação de Piano: Guthemberg Padilha.
Conclusão do Gazeta do Som: Ouvir este rip é entender que Jobim não estava morrendo; ele estava se eternizando como o nosso maior arquiteto musical. É o Brasil sofisticado, rigoroso e imortal.
01. Só Danço Samba
02. Piano na Mangueira
03. How Insensitive (Insensatez) (part. esp. Sting)
04. Querida
05. Surfboard
06. Samba de Maria Luiza (part. esp. Maria Luiza Jobim)
07. Forever Green
08. Maracangalha
09. Maricotinha (part. esp. Dorival Caymmi)
10. Pato Preto
11. Meu Amigo Radamés
12. Blue Train (Trem Azul)
13. Radamés y Pelé
14. Chora Coração
15. Trem de Ferro

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