O Exorcismo do Volume 3: Derrubando a Muralha de Tijolo
Ao iniciar a seleção de faixas para o Antena 1 All Night Vol. 3, eu não sabia que tinha em mãos um verdadeiro "estudo de caso" sobre o maior crime da indústria fonográfica atual: a Muralha de Tijolo (Brickwall Limiting).
Muitos confundem esse termo com a famosa Muralha de Som (Wall of Sound) criada por Phil Spector e imortalizada pelo ABBA nos anos 70. Mas existe uma diferença abissal entre construir uma catedral e levantar um muro de arrimo.
A Desculpa da FM: O Bode Expiatório dos Preguiçosos
A justificativa das gravadoras para o som achatado é sempre a mesma: "Precisamos soar o mais alto possível para competir nas FMs". Alegam que, como nem toda rádio possui processadores de ponta para tratar o sinal antes da transmissão, a música já deve sair do estúdio "mastigada" e no limite do clipping.
A verdade? A FM tornou-se o refúgio de engenheiros de som preguiçosos. A Muralha de Tijolo é usada como maquiagem para esconder produções mal resolvidas e masterizações feitas às pressas. Eles guilhotinam os transientes e eliminam o "vulto" dos instrumentos para entregar um bloco sólido de barulho que cansa o ouvido em poucos minutos.
1970 vs. 2026: Camadas contra Cimento
Na década de 1970 (Muralha de Som): O pretexto era a rádio AM. Para vencer o chiado e a baixa fidelidade, gênios como o produtor do ABBA criavam camadas densas e orquestrações complexas. Mas ali havia engenharia. O som era gigante, mas respirava. Tinha picos, vales e uma dinâmica que preservava a emoção.
Hoje (Muralha de Tijolo): A desculpa é a FM, mas a execução é pura destruição. Em vez de camadas artísticas, temos achatamento digital. Eles pegam vozes potentes como as de Christina Aguilera ou a delicadeza espacial de Marie Fredriksson e as esmagam contra uma parede de 0 dB.
O Resgate do Gabarito de 1989
Neste Volume 3, meu trabalho foi de demolição. Usei o Gabarito de 1989 para quebrar esse muro de concreto e encontrar a arte que estava enterrada lá embaixo.
Ao alcançar o DR10 (Dynamic Range) em faixas que originalmente eram "tijolos" de DR5, eu recuperei o que a Muralha de Tijolo tentou matar:
O Transiente: O impacto real da bateria que agora "estala" em vez de apenas chiar.
O Vulto: A distância entre o vocal e os instrumentos.
A Emoção: A capacidade de ouvir uma voz "vinda do além" ou uma súplica sussurrada que o limitador digital insistia em esconder.
O resultado não é apenas uma coletânea de sucessos de 2016. É um manifesto. Está provado que a densidade do pop pode existir em áudio saudável. Se a Muralha de Tijolo é o que a indústria nos empurra, o Volume 3 é a prova de que, com um pouco de luz e paciência técnica, aquele "vulto" (o famoso arzinho da canção) sempre volta a aparecer.
Nota do blog: Este texto foi criado com uso do Gemini, fruto de leitura, comparações de informações e diálogo com a IA. Parece um curso de graduação em produção musical, mas na verdade é esse assunto é antigo na comunidade audiófilos e colecionadores e quis tornar possível combinar meu trabalho de jornalista, curador musical e engenheiro de som em constante formação (por que não?).
Agora vamos à seleção matadora, que tá o créme de la créme!
Para entender o tamanho da degradação sonora atual, olhemos para a faixa 'You Don't Own Me'. A canção, que ganhou o mundo em 2016 como tema do filme Esquadrão Suicida na voz da cantora Grace, carrega uma ironia dolorosa. O produtor da versão original de 1963 — a lendária gravação de Lesley Gore — foi ninguém menos que Quincy Jones.
Pois bem, o próprio Quincy retornou para produzir este cover de 2016. Mas aqui reside a tragédia: nem mesmo o homem que desenhou a perfeição acústica de Thriller e Off the Wall do Rei do Pop teve força para apitar na masterização final. A música foi entregue ao moedor de carne da indústria e esmagada contra a Muralha de Tijolo. Onde deveria haver o balanço e a elegância que Quincy Jones ensinou ao mundo, sobrou apenas um bloco de ruído digital.
Ironicamente, para salvar essa faixa no meu Volume 3, recorri ao Gabarito de 1989, buscando referência em uma coletânea do próprio Quincy lançada naquele ano. Foi necessário usar o Quincy 'raiz' de 89 como antídoto para resgatar a dignidade da obra que o Quincy de 2016, refém do padrão comercial, não conseguiu proteger.

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